China estimula vizinhos a elevar gasto militar

Ambição territorial chinesa leva países do entorno a se armar; Ásia e Oceania mantêm investimentos crescentes no setor desde 1988

RENATA TRANCHES , O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2014 | 02h02

Os investimentos militares da China elevaram os gastos no setor na Ásia e na Oceania e tornaram as regiões as únicas ter um crescimento contínuo nesse tipo de gasto desde 1988. Segundo relatório do Instituto Internacional de Pesquisas da Paz de Estocolmo (Sipri, na sigla em inglês) o valor investido em armas pelos países desses continentes em 2013 foi US$ 407 bilhões, um aumento de 3,6% com relação ao ano anterior.

A China aparece na segunda posição entre os 15 maiores investidores globais em defesa no mais recente levantamento anual da entidade, divulgado na segunda-feira. Em 2013, sozinho, o país gastou US$ 188 bilhões no setor, um aumento de 7,4% em relação ao ano anterior. No mesmo ranking, o Brasil aparece na 12.ª posição - em 2012, o País estava em 14.º lugar. Disparados na liderança, os EUA investiram US$ 640 bilhões em suas forças militares.

Os chineses chamam ainda mais atenção em outro grupo: o das 23 nações que dobraram ou mais que dobraram seus gastos militares em dez anos (mais informações no infográfico ao lado). Impulsionadas pelo crescimento econômico do país, as despesas militares chinesas nesse período tiveram um aumento de 170%. No entanto, a fatia do Produto Interno Bruto (PIB) dedicada ao setor permaneceu em torno dos 2% na China.

Graças ao montante chinês gasto em armas, Ásia e Oceania têm tido um crescimento no setor militar contínuo desde que o instituto sueco passou a fazer seu levantamento regularmente, com base nos orçamentos domésticos dos países. "Excluindo a China, os gastos do restante da região aumentaram apenas 0,9% (de 2012 para 2013)", destacou o último relatório.

A questão política refletiu-se nesses investimentos. De acordo com o documento, as tensões em torno de disputas territoriais no Mar do Sul da China levaram Indonésia, Filipinas e Vietnã a aumentar seus gastos militares. Juntos, os países foram responsáveis por um crescimento de 5% entre os Estados do Sudeste Asiático.

Sem querer afetar suas relações com a segunda maior potência econômica, os EUA vêm mudando o foco de sua política externa, já observando o impacto dessas tensões entre os aliados na região. Washington acompanha os desdobramentos no gigante asiático, especialmente depois da posse do presidente chinês, Xi Jinping.

Um relatório elaborado pela Comissão de Revisão Econômica e de Segurança EUA-China, do Congresso americano, mostrou no ano passado que a transição de poder em Pequim, em 2012, causou a "maior virada" na Comissão Militar Central chinesa em uma década. O levantamento referia-se ao mais alto comando militar da China, subordinado ao Partido Comunista. De acordo com esse relatório, o novo líder chinês tem imprimido sua marca na defesa e foi o grande responsável por essa mudança.

Fator comum. Em geral, segundo o Sipri, os 23 países que mais que dobraram seus gastos militares em dez anos apresentam pelo menos uma de características: um forte crescimento econômico, um alto rendimento de receitas de petróleo ou gás ou um conflito significativo. No caso do Afeganistão - primeiro da lista, com um aumento de 557% nos gastos -, a justificativa é que o investimento passou a ser declarado com a transição da segurança das tropas estrangeiras para os afegãos.

Em todos os casos, o crescimento dos investimentos em armas nesse período - 2004 a 2013 - foi maior do que o crescimento do PIB dos países.

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