Aly Song/REUTERS
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China ignorou mudança climática

Crescimento desordenado deixou menos lugares para a água da chuva ser absorvida

Redação, O Estado de S.Paulo

27 de julho de 2021 | 05h00

PEQUIM - O vertiginoso crescimento da China nas últimas quatro décadas ergueu grandes cidades onde antes havia aldeias e lavouras. As cidades atraíram fábricas e as fábricas atraíram trabalhadores. O boom tirou centenas de milhões de pessoas da pobreza e dos problemas rurais que enfrentavam até então.

Agora, essas cidades encaram o desafio assustador de se adaptar às condições meteorológicas extremas causadas pelas mudanças climáticas, uma possibilidade na qual poucos pensaram enquanto o país iniciava sua extraordinária transformação econômica. De certa forma, a urbanização rápida e desordenada da China deixou o desafio ainda mais difícil de enfrentar.

Nenhum evento climático pode ser diretamente relacionado às mudanças climáticas, mas a tempestade que inundou Zhengzhou e outras cidades no centro da China na semana passada, matando pelo menos 69 pessoas na segunda-feira, reflete uma tendência global de clima extremo que recentemente provocou inundações letais na Alemanha e na Bélgica e forte calor e incêndios florestais na Sibéria. As enchentes na China, que engolfaram linhas de metrô, destruíram estradas e isolaram vilas, também destacam as vulnerabilidades ambientais que acompanharam o boom econômico do país e ainda podem miná-lo.

A China sempre teve inundações, mas como Kong Feng, então professor de políticas públicas na Universidade Tsinghua em Pequim, escreveu em 2019, a inundação de cidades por toda a China nos últimos anos é “uma manifestação geral dos problemas urbanos” do país.

A vasta expansão de ruas, metrôs e ferrovias nas cidades, que aumentaram quase da noite para o dia, significou que havia menos lugares onde a chuva poderia ser absorvida – interrompendo o que os cientistas chamam de ciclo hidrológico natural.

Faith Chan, professora de geologia da Universidade de Nottingham em Ningbo, no leste da China, disse que as cidades do país – e são 93 com população de mais de um milhão – se modernizaram em um momento em que os líderes chineses deram menos prioridade à resiliência climática do que ao crescimento econômico. “Se eles tivessem a chance de construir as cidades novamente, ou de planejar uma cidade, acho que concordariam em deixá-la mais equilibrada”, disse Chan, que também é pesquisadora visitante da Universidade de Leeds.

A China já deu alguns passos para começar a lidar com as mudanças climáticas. Xi Jinping é o primeiro líder do país a fazer da questão uma prioridade nacional. Já em 2013, Xi prometeu construir uma “civilização ecológica” na China. “Devemos manter a harmonia entre o homem e a natureza e buscar o desenvolvimento sustentável”, disse em um discurso em Genebra naquele ano.

O país quase quintuplicou a área verde de suas cidades nas últimas duas décadas. E introduziu um programa-piloto para criar “cidades esponjosas”, entre elas Zhengzhou, para absorver melhor a chuva. No ano passado, Xi prometeu acelerar as reduções nas emissões e alcançar a neutralidade do carbono até 2060. Foi uma mudança tectônica na política e pode vir a sê-lo na prática também.

A questão é saber se é tarde demais. Mesmo que países como a China e os Estados Unidos reduzam rapidamente a emissão de gases de efeito estufa, o aquecimento daqueles já emitidos provavelmente terá consequências duradouras.

O aumento do nível do mar agora ameaça as metrópoles costeiras da China e tempestades cada vez mais fortes atingem cidades do interior que, como Zhengzhou, estão afundando sob o peso do desenvolvimento que foi planejado às pressas, com edifícios e infraestrutura que muitas vezes foram construídos de maneira inadequada.

Até mesmo Pequim, atingida por uma enchente em 2012, que deixou 79 mortos, ainda não tem o sistema de drenagem necessário para enfrentar uma grande tempestade, apesar dos marcos arquitetônicos que simbolizam o crescente poder da China.

Em Zhengzhou, as autoridades descreveram as chuvas torrenciais que caíram na semana passada como uma tempestade única no milênio, que nenhum planejamento poderia ter evitado. O agravamento do impacto das mudanças climáticas pode representar um desafio para o Partido Comunista, uma vez que o poder político na China há muito está associado à capacidade de controlar desastres naturais. Anos atrás, um clamor público contra a poluição tóxica do ar em Pequim e outras cidades forçou o governo a agir.

“Como temos cada vez mais eventos como o que aconteceu nos últimos dias, acho que haverá mais percepção nacional sobre o impacto das mudanças climáticas e mais reflexão sobre o que devemos fazer a respeito”, disse Li Shuo, analista de clima do Greenpeace na China.

De certa forma, a urbanização facilitou o ajuste, pois realocou milhões de pessoas de aldeias rurais que tinham muito menos defesas contra inundações recorrentes. É por isso que o número de vítimas de inundações recentes ficou na casa das centenas, não na casa dos milhões, como foram algumas das piores catástrofes da história do país. / NYT, TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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