AP Photo/Ng Han Guan
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China iguala Xi Jinping a Mao e Deng e abre caminho para seu 3º mandato

Reunião do Comitê Central terminou com resolução histórica, apenas a terceira em 100 anos, que consolida autoridade do atual líder chinês

Redação, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2021 | 12h32

PEQUIM — O Comitê Central do Partido Comunista da China aprovou nesta quinta-feira, 11, uma resolução que põe o presidente Xi Jinping no panteão dos líderes chineses que marcaram época, equiparando-o a Mao Tsé-tung e Deng Xiaoping. Reavaliando oficialmente os 100 anos do partido, a medida consolida o poder de Xi e abre caminho para que seu mandato seja estendido até ao menos 2028 no congresso do PCC que ocorrerá no ano que vem.

A “resolução histórica”, apenas a terceira já aprovada pelo organismo em um século, foi anunciada ao fim do encontro de quatro dias. Ela afirma que, sob o comando de Xi, a China teve “conquistas históricas e passou por uma transformação histórica”, segundo o comunicado oficial. O documento lista ainda sucessos econômicos, na política externa, no combate à corrupção e na contenção da covid-19.

"Estabelecer a posição do camarada Xi Jinping como o coração do Comitê Central e de todo o partido (...) tem importância decisiva para avançar em direção ao grande rejuvenescimento da nação chinesa", disseram os integrantes do comitê ao fim do conclave, segundo a agência estatal Xinhua. O "rejuvenescimento da nação" é o slogan adotado por Xi desde que foi escolhido para a Presidência, em 2012, pelo qual ele pretende que a China seja uma "nação socialista moderna" em 2035 e uma "grande potência forte e próspera" em 1949, quando se completarão 100 anos do PCC no poder.

O Comitê Central reúne a elite do partido — cerca de 200 integrantes que têm direito a voto e outros 170 que não participam diretamente da tomada de decisão. O grupo geralmente realiza reuniões anuais, dando as diretrizes para questões políticas e normativas.

Reuniões passadas tiveram consequências importantes para o país: em 1978, o Comitê Central abriu caminho para as reformas de mercado comandadas por Deng, e em 2013 aprovou um esboço para as reformas sociais e econômicas de Xi. Em 2019, pôs em curso os preparativos para a draconiana lei de segurança nacional imposta a Hong Kong.

Terceiro mandato

O encontro também marca o início de um ano importante para a política chinesa: ele precede o Congresso Nacional de 2022, evento quinquenal em que o PCC irá aprovar uma nova liderança para o país. Sem rival ou herdeiro político aparente, tudo indica que Xi será escolhido para um terceiro mandato consecutivo, algo sem precedentes no país desde a morte de Mao, em 1976. Há três anos, o Comitê Central eliminou o limite de dois mandatos consecutivos para o presidente que havia sido estabelecido nos anos 1980, de modo a reforçar a "liderança coletiva".

A decisão desta quinta põe o presidente no mesmo patamar de Mao, o fundador da República Popular da China, e Deng, o pai das reformas econômicas que fariam do gigante asiático a segunda maior economia do planeta.

Ambos usaram as duas resoluções similares à de hoje para se consolidarem no poder em 1945 e 1981, respectivamente. Xi, por sua vez, lançou reformas para aprofundar o chamado "socialismo de mercado" e aumentar a autonomia tecnológica da China. Recentemente, lançou a campanha contra a desigualdade, sob o slogan da "prosperidade comum".

Sob o comando dos três, o país passou por uma “tremenda transformação ao se erguer e crescer prosperamente para se tornar forte”, disse o comunicado desta quinta. O documento afirma também que “apenas o socialismo pode salvar e desenvolver a China”.

“O propósito central do plenário é cimentar Xi como o líder [chinês] mais importante desde Mao e Deng”, disse ao Financial Times Henry Gao, especialista em China na Universidade de Administração de Cingapura. “A mensagem é que a era da reforma alcançou tal ponto que o partido agora pode embarcar na construção de um ‘país solicialista moderno’, com ênfase no ‘socialista’”.

Revisitando a história

A resolução também fortalece o argumento de que Xi é o único capaz de guiar o país ao status de superpotência em meio a desafios crescentes e à chamada nova guerra fria com os Estados Unidos. Líder mais poderoso da China em décadas, ele ganhou amplo apoio público por atacar a corrupção, reduzir a pobreza e projetar a força chinesa para o mundo.

Mais recentemente, também foi alavancado pelo triunfo chinês no combate à Covid-19, reforçado pela máquina de propaganda estatal. Há contudo, uma série de desafios pela frente: entre eles, uma população que envelhece, pressões sociais e econômicas e firmas endividadas. Como é tradição na China, a resolução de hoje busca invocar a História para enfrentá-los.

O documento, na prática, apresenta os 100 anos do PC como uma história heróica que reconhece tempos traumáticos como a fome sob o Grande Salto Adiante maoista apenas como pano de fundo, sem destacá-los. Eclipsa também os dois antecessores de Xi, Hu Jintao e Jiang Zemin, que governaram por dois mandatos e escolheram seus sucessores com cinco anos de antecedência.

A resolução deverá ser o centro de uma intensa campanha de propaganda, ditando como a História moderna da China será contada em livros, filmes, programas de televisão e salas de aula. Isso encorajará os censores e policiais a aplicarem leis mais rígidas contra qualquer um que zombe, ou mesmo questione, a causa comunista e seus “mártires".

O documento busca não só fortalecer o presidente, mas silenciar membros do partido que buscam reduzir o domínio de Xi antes do congresso de 2022. Especialmente após a medida desta quinta, tais críticas podem ser consideradas heresia. /NYT e W.POST

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