NG Han Guan/AP Photo
NG Han Guan/AP Photo

China impõe restrições ao 'culto de celebridades' e 'estilos afeminados'

Órgão que regula o rádio e a televisão no país emitiu comunicado em que pede que emissoras evitem conteúdos construídos em torno de escândalos, riqueza ostensiva e celebridades 'vulgares'

Redação, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2021 | 08h24

A China emitiu uma ordem às emissoras de rádio e de televisão para que evitem artistas com “posições politicamente incorretas” e “estilos afeminados”, reafirmando a necessidade de cultivar uma atmosfera patriótica. A medida, divulgada nesta quinta-feira, 2, foi vista como mais um cerceamento à expansão da indústria do entretenimento do país.

O aviso do governo reforça que programas televisivos que retratem comportamento "afeminado" e outros conteúdos considerados "distorcidos" devem ser interrompidos, junto com os que são construídos em torno de escândalos, riqueza ostensiva e celebridades "vulgares" da internet.

Algumas estrelas "afeminadas" são imorais e podem prejudicar os valores dos adolescentes, de acordo com um artigo de opinião do jornal estatal Guangming Daily publicado em 27 de agosto, escrito por um ex-funcionário de uma mídia militar.

Um exemplo disso seria o caso do produtor de conteúdo Feng Xiaoyi, que teve o seu perfil excluído da plataforma Douyin, versão chinesa do TikTok, no final de agosto após reclamações de usuários de que ele seria “afeminado” demais. 

Usuários da rede social Weibo, por outro lado, criticam as novas diretrizes midiáticas. “A estética (dos usuários) deveria ser mais diversa”, dizia uma das publicações, com mais de 20 mil curtidas. “Isso não é um tipo de discriminação?”, afirmava outra. 

Pelas novas diretrizes do governo chinês, o departamento de publicidade do partido critica algumas celebridades por sua alegada má influência sobre os jovens e por "poluir gravemente a atmosfera social". A Administração Nacional de Rádio e Televisão da China, órgão de nível ministerial, disse que reforçará a regulamentação dos salários das estrelas e punirá os sonegadores de impostos, além de eliminar qualquer conteúdo em programas culturais que considere prejudicial à saúde.

Ao longo dos últimos meses, Xi Jinping e o Partido Comunista da China têm tomado uma série de medidas que afetam a indústria do entretenimento. O governo adotou regras para restringir o tempo que menores de 18 anos podem passar jogando videogames. O teto é de uma hora por dia às sextas, aos sábados e aos domingos e feriados. 

Na semana passada, o órgão regulador da internet do país disse que está combatendo o que descreveu como uma cultura "caótica" de fãs de celebridades. 

As autoridades do Partido Comunista podem censurar qualquer coisa que acreditem que viole os valores socialistas fundamentais e já têm regras rigorosas sobre o conteúdo que vai de videogames a filmes e música. As últimas ações que controlam a indústria do entretenimento vêm na sequência de uma série de escândalos de celebridades envolvendo sonegação de impostos e agressão sexual, a exemplo de Kris Wu, artista que está preso após ser acusado de estupro. Ele também perdeu contratos que tinha com várias marcas de luxo.

Muitos têm visto nessa nova postura ecos da Revolução Cultural promovida por Mao Tsé-Tung, promovida entre 1966 e 1976, cujo objetivo declarado era “preservar o comunismo chinês purgando os restos de elementos capitalistas e tradicionais da sociedade chinesa”. Na prática, resultou em escolas fechadas, perseguição e morte de intelectuais e artistas, e no culto exagerado à personalidade de Mao. 

“Todos podem sentir que uma revolução profunda está a caminho na China!”, escreveu no domingo, 29, o jornalista Li Guangman, do site maoísta Chawang, publicado na plataforma WeChat. Os índicios, segundo ele, iriam “da suspensão do IPO da Ant à proposta de tomar o caminho da Prosperidade Comum e ao caos recente na indústria de entretenimento”. Segundo ele, “a opinião pública não estará mais em posição de adoração da cultura ocidental”. /REUTERS

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