Bill Smith/Efe
Bill Smith/Efe

China impõe silêncio a outro dissidente solto

Hu Jia, libertado após três anos e meio na cadeia acusado de subversão, está proibido de dar entrevistas ou escrever na web por um ano

Cláudia Trevisan, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2011 | 00h00

CORRESPONDENTE / PEQUIM

O ativista político chinês Hu Jia deixou ontem a prisão, depois de cumprir a sentença de três anos e meio a que havia sido condenado sob acusação de subversão. Como outros opositores do regime soltos nos últimos meses, ele deverá enfrentar uma série de restrições à sua liberdade de expressão e locomoção.

Fora da prisão, ele estará proibido de dar entrevistas ou se manifestar por escrito durante um ano, o que incluiu textos ou posts na internet. A restrição é semelhante à aplicada ao artista plástico Ai Weiwei, solto na semana passada depois de passar quase três meses na prisão.

Hu Jia atuava em defesa dos direitos de portadores do vírus HIV, em questões ambientais e a favor de reformas democráticas na China. Em setembro de 2007, 11 meses antes dos Jogos de Pequim, Hu Jia e o advogado Teng Biao divulgaram o manifesto "A China Real e a Olimpíada", no qual criticavam a situação dos direitos humanos no país.

Dias antes de sua prisão, em dezembro de 2007, ele participou por videoconferência de uma audiência do Parlamento Europeu sobre o assunto. "É irônico que uma das pessoas responsáveis por organizar os Jogos Olímpicos seja o chefe do Departamento de Segurança Pública, responsável por inúmeras violações dos direitos humanos. É muito grave que as promessas oficiais não estejam sendo cumpridas antes dos Jogos", declarou então o ativista.

Em 2008, Hu Jia ganhou o Prêmio Sakharov para a Liberdade de Pensamento, o mais importante na área de direitos humanos concedido pelo Parlamento Europeu, e seu nome foi apresentado como candidato ao Nobel da Paz em 2008 e 2009.

O ativista foi libertado na madrugada de ontem. "Em uma noite sem sono, Hu Jia voltou para casa às 2h30. Em paz. Muito feliz. Precisa de algum tempo para se recuperar", escreveu sua mulher, Zeng Jinyan, em um post no Twitter, acessível na China apenas com o uso de ferramentas que burlam a censura. A soltura de Hu Jia era esperada - já que ele cumpriu sua pena -_e coincidiu com a visita de quatro dias que o primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, realiza à Europa.

Ainda não está claro se Hu Jia terá liberdade de locomoção ou se ficará confinado a sua casa. Ainda que considerada ilegal por advogados nessas circunstâncias, a prisão domiciliar tem sido usada com frequência cada vez maior pelas autoridades chinesas contra opositores do regime.

"Antes de mais nada, Hu Jia não deveria nunca ter sido preso", declarou a diretora para Ásia da Human Rights Watch, Sophie Richardson. "Se essa injustiça for combinada com outra forma de detenção, isso apenas mostrará o quão raso é o compromisso do governo chinês com o "império da lei"", ressaltou.

Liu Xia, mulher do prêmio Nobel da Paz de 2010, Liu Xiabo, é mantida incomunicável em seu apartamento de Pequim desde o ano passado. Outros que deixaram a prisão depois de cumprirem a pena continuam impedidos de se locomover livremente.

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