China impõe toque de recolher em cidade marcada por protesto

Polícia tenta conter novos confrontos entre chineses han e uigures em capital de região de Xinjiang

07 de julho de 2009 | 07h09

 

Uigures dizem que são vítimas de violência indiscriminada. Foto: Reuters

 

PEQUIM - As autoridades chinesas impuseram um toque de recolher noturno em Urumqi, capital da região autônoma de Xinjiang, em meio a uma crescente onda de tensão entre grupos étnicos locais. Nesta terça-feira, 7,a polícia teve que usar bombas de gás lacrimogêneo para dispersar uma multidão de milhares de chineses de etnia han que saíram pelas ruas da cidade armados de facões e pedaços de pau, destruindo lojas e barracas pertencentes a membros da etnia uigur.

 

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O secretário do Partido Comunista da China (PCCh) na região de Xinjiang, Wang Lequan, informou, em discurso televisionado, que proibirá os cidadãos de sair às ruas das 21h desta terça-feira (10h de Brasília) até as 8h de quarta-feira (22h de Brasília), "para evitar um aumento do caos".

Os chineses han diziam estar respondendo à onda de violência promovida por uigures no fim de semana. O governo chinês diz que 156 pessoas - a maioria da etnia han - morreram nos distúrbios que eclodiram no domingo em Urumqi. Segundo as autoridades, manifestantes uigures atacaram veículos e em seguida passaram a atacar membros da etnia han e a enfrentar forças de segurança. Mais de mil pessoas teriam ficado feridas. Já grupos uigures dizem que o número de mortos foi bem maior e que cerca de 90% dos mortos eram uigures. Mais de mil pessoas foram feridas nos confrontos.

Na origem dos protestos de domingo estaria a morte de dois migrantes uigures por um homem da etnia han (92% da população) em uma briga, no mês passado, em uma fábrica na cidade de Shaoguan, na província de Guangdong, no sul da China. As duas mortes ocorreram durante uma briga que deixou 118 feridos e começou após um uigur ser acusado de assediar sexualmente uma colega han da fábrica.

Poucos antes dos protestos dos chineses han nesta terça-feira, cerca de 200 membros da etnia uigur saíram às ruas. Segundo a BBC, o protesto foi visto por jornalistas estrangeiros quando eles estavam sendo levados pelo governo para ver partes da cidade destruídas pela violência dos últimos dias. A manifestação foi encabeçada por mulheres, muitas de idade avançada, que confrontaram a polícia de choque para reivindicar a libertação dos presos no dia anterior. A polícia ameaçou usar jato d'água e conteve o protesto.

 

As mulheres, vestindo turbantes floridos, bloquearam uma estrada. Algumas choravam pela prisão de seus maridos e filhos. A polícia antimotim se posicionou numa extremidade da estrada e os paramilitares, na outra. Ao falar sobre a prisão do marido, uma mulher disse que prefere morrer a viver sem ele. Os paramilitares, vestindo uniformes de camuflagem verde e portando cassetetes, marcharam pela estrada e empurraram a multidão. Uma mulher caiu. O breve confronto terminou quando os paramilitares recuaram. No lado oposto, policiais em uniformes pretos tomaram posições, armados com rifles e pistolas de gás lacrimogêneo. A polícia tentou separar os homens da multidão, reunindo-os à margem da estrada. O protesto de 90 minutos terminou quando as mulheres recuaram para dentro de um mercado, sem encontrar resistência, enquanto os policiais procuravam afastar os jornalistas.

 

 

 

A nova manifestação ocorreu depois de a mídia estatal ter informado que a polícia prendeu 1.434 suspeitos de participação no protesto de domingo. A telefonia celular e o site de relacionamento social Twitter foram bloqueados. As autoridades chinesas confirmaram que, para conter a violência, interromperam o acesso à internet em algumas áreas da província.

 

Em outro episódio da violência étnica, um grupo de chineses da etnia majoritária han tentou entrar à força na mesquita de Hantengri, no centro de Urumqi, para atacar uigures refugiados no local, A mesquita, próxima ao hotel onde estão hospedados os jornalistas estrangeiros que cobrem o conflito, estava isolada pelos soldados, mas alguns chineses han, armados com paus, tentaram entrar várias vezes no templo, sem sucesso.

 

Alguns deles disseram que não há outra saída que fazer justiça com as próprias mãos, já que "o governo não pode fazer nada contra os uigures, por medo da comunidade internacional". Segundo eles, os uigures atacaram comércios dos han em dias anteriores e não são oriundos da cidade, mas procedentes de outras zonas da região de Xinjiang, como Kashgar e Yili, que, em anos anteriores, também registraram incidentes violentos.

 

Confrontos

 

A violência do confronto revela o grau de tensão étnica existente em Xinjiang e ecoa os protestos que ocorreram no Tibete em março de 2008, quando choques entre manifestantes e a polícia deixaram um número ainda desconhecido de mortos. O governo chinês afirma que foram 22, mas grupos ligados ao líder espiritual dalai-lama falam que chegaram a 140 os mortos nos confrontos, que ocorreram em várias regiões habitadas por tibetanos.

O governo de Xinjiang culpou os separatistas uigures que vivem no exílio por orquestrar os ataques contra os chineses da etnia han. Já grupos uigures insistem que seu protesto foi pacífico e que eles foram vítima de violência por parte do Estado, com a polícia atirando indiscriminadamente contra os manifestantes em Urumqi.

 

As autoridades chinesas atribuíram a responsabilidade pelas mortes de domingo a Rebiya Kadeer, a presidente do Congresso Uigur Mundial, organização com sede na Alemanha que defende a independência de Xinjiang. Empresária, Rebiya era uma ativista de direitos humanos quando foi presa em Urumqi em 1999, acusada de entregar segredos de Estado a estrangeiros, "crime" comumente atribuído a dissidentes chineses. Libertada em 2005, Rebiya exilou-se nos EUA, onde seu marido vivia desde 1996.

Testemunhas e a mídia estatal disseram que os manifestantes destruíram barreiras e atacaram casas e veículos, além de entrar em choque com a polícia no domingo. A TV estatal mostrou imagens de manifestantes batendo e chutando pessoas caídas no chão. Também há fortes imagens do que parecem ser chineses da etnia han sentados, com olhar atordoado e sangue correndo por seus rostos. A polícia afirma que alguns corpos foram recolhidos nas ruas depois dos choques. Outros, morreram nos hospitais.

A agência oficial de notícias chinesa Xinhua informou na segunda-feira que a polícia acredita que "agitadores" estariam "tentando organizar mais choques" em outras cidades em Xinjiang. Liu Weimin, porta-voz da Embaixada Chinesa em Londres, disse à BBC que forças extremistas estão envolvidas. "O governo local de Xinjiang tem provas de que forças extremistas dentro e fora da China se comunicaram intensivamente antes do incidente eclodir no domingo", disse ele.

Rebiya Kadeer, a presidente exilada da Associação Americana Uigur, negou as acusações do governo chinês de que ela tenha incitado a violência. Ela afirmou ter tomado conhecimento dos protestos através de websites e só ligou para sua família para aconselhá-los a ficar fora das manifestações. Ela é frequentemente acusada pelo governo chinês por qualquer tumulto na província dos uigures, da mesma forma que Pequim culpa o dalai-lama pelas tensões no Tibete. Em entrevista ao Estado, a carismática Rebiya defendeu-se. "Estou pedindo a todos os uigures fora da China que protestem contra os maus-tratos que nosso povo sofre em Xinjiang, mas não incitei os uigures de Urumqi a protestar".

 

Rebiya era uma empresária de sucesso em Xinjiang, província onde se concentram os uigures, minoria muçulmana da China. Com uma infância muito pobre, ela começou a vida como lavadeira, mas se tornou uma empresária de sucesso, dona de uma trading e uma loja de departamentos, além de passar a trabalhar em obras de caridade na região. Ela chegou a ser muito prestigiada pelo PC chinês, que a indicou para ser representante da China na Conferência da ONU sobre mulheres em 1995, em Pequim. Mas tudo mudou depois que seu marido, o ex-prisioneiro político Sidik Rouzi, fugiu da China para os Estados Unidos.

 

Rebiya começou a sofrer intimidações da polícia. Em 1999, foi presa por "revelar segredos de Estado" da China. Seu crime foi enviar para o marido nos EUA recortes de jornais locais com notícias sobre as atividades dos uigures em Xinjiang. Ela ficou na prisão até 2005. Saiu em liberdade condicional após muita pressão do governo americano. Rebiya foi para os EUA fazer tratamento de saúde e mora em Washington até hoje.

 

Ela tem 11 filhos e 2 deles estão presos em Xinjiang há três anos. "As autoridades chinesas prenderam meus filhos como forma de retaliação contra mim, eles queriam se vingar", disse Rebiya. Segundo ela, o governo americano a está ajudando a negociar a libertação dos dois filhos.

 

(Com Cláudia Trevisan e Patrícia Campos Mello, de O Estado de S. Paulo)

 

Texto atualizado às 9h05.

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