Iranian President Office via EFE/EPA
Iranian President Office via EFE/EPA

China investirá no Irã US$ 400 bi em troca de petróleo

Acordo de 25 anos aumenta influência chinesa no Oriente Médio e contraria plano dos EUA de isolar Teerã ao renegociar pacto nuclear

Redação, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2021 | 05h00

PEQUIM - A China concordou em investir US$ 400 bilhões (R$ 2,3 trilhões) no Irã durante 25 anos em troca de suprimento constante de petróleo a preço baixo para abastecer sua economia, em um amplo acordo econômico e de segurança. A negociação aprofunda a influência da China no Oriente Médio e mina esforços americanos para manter o Irã isolado. 

Não está claro o ritmo de implementação do pacto assinado neste sábado, 27, uma vez que a disputa dos EUA com o Teerã sobre o programa nuclear iraniano permanece sem solução.

O presidente Joe Biden ofereceu retomar com o Irã negociações sobre o acordo nuclear de 2015, que seu antecessor, Donald Trump, desfez três anos depois de ter sido assinado. Autoridades americanas dizem que ambos os países podem tomar medidas para fazer com que o Irã cumpra aqueles termos enquanto os EUA suspendem gradualmente as sanções.

O Irã se recusa a fazê-lo, e a China o apoia, exigindo que os EUA ajam primeiro para reativar o acordo e suspender as sanções unilaterais que sufocaram a economia iraniana. A China foi uma das cinco potências que, junto aos EUA, assinaram o pacto de 2015 com o Irã.

Os chanceleres dos dois países, Javad Zarif e Wang Yi, assinaram o acordo durante cerimônia no Ministério das Relações Exteriores em Teerã no sábado. O acerto encerrou visita de dois dias de Wang, reflexo da crescente ambição da China numa região estratégica para os EUA há décadas.

“Para a região emergir do caos e desfrutar de estabilidade, ela deve se libertar das sombras da rivalidade geopolítica das grandes potências, permanecer imune à pressão e interferência externa e explorar caminhos de desenvolvimento adequados a suas realidades regionais”, afirmou o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Hua Chunying. 

Especialistas dizem que o acordo prevê investimento dos US$ 400 bilhões (R$ 2,3 trilhões) em dezenas de campos, incluindo bancos, telecomunicações, portos, ferrovias, saúde e tecnologia da informação. Em troca, a China receberá fornecimento regular petróleo iraniano a preços baixos.

Também está previsto aprofundamento da cooperação militar, incluindo treinamento e exercícios conjuntos, pesquisa em parceria e desenvolvimento de armas e compartilhamento de inteligência.

Avanço chinês

Wang já visitou o arquirrival do Irã, a Arábia Saudita, bem como a Turquia, e deve ir ainda aos Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Omã nos próximos dias. Ele disse que a região está em uma encruzilhada e ofereceu a ajuda da China para resolver disputas persistentes, incluindo o programa nuclear do Irã. A China também se diz pronta para promover conversas diretas entre israelenses e palestinos. 

No Irã, as opiniões sobre a expansão da influência da China são mistas. Depois que o presidente Xi Jinping propôs pela primeira vez o acordo estratégico durante sua visita de 2016, as negociações para concluí-lo foram lentas. O Irã havia acabado de fechar um acordo com os EUA e outras nações para aliviar as sanções econômicas em troca de severas restrições a suas atividades de pesquisa nuclear, e as empresas europeias começaram a migrar para o Irã com investimentos e ofertas de parcerias para desenvolver campos de gás e petróleo.

Essas oportunidades evaporaram depois que Trump retirou os EUA do acordo e impôs novas sanções que os europeus temiam que pudessem envolvê-los. Isso levou o Irã a olhar para o leste. O aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã, ordenou o renascimento das negociações com a China, nomeando um político conservador de confiança e ex-presidente do Parlamento, Ali Larijani, como encarregado especial.

Críticos reclamam que faltou transparência na negociação com os chineses. Consideram o pacto uma venda dos recursos do Irã e o comparam a pactos unilaterais da China com países como o Sri Lanka. Apoiadores dizem que o Irã deve ser pragmático e reconhecer o crescente peso econômico da China. “Por muito tempo em nossas alianças estratégicas colocamos todos os nossos ovos na cesta do Ocidente e isso não deu resultados”, disse Ali Shariati, analista econômico. “Se mudarmos a política e olharmos para o Leste, não será tão ruim.”

Se a retomada do acordo nuclear fracassar totalmente, as empresas chinesas poderão enfrentar sanções secundárias de Washington. O processo americano contra a gigante chinesa de telecomunicações Huawei inclui acusações de que a empresa negociava furtivamente com o Irã, violando essas sanções.  Hua Chunying, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores em Pequim, enfatizou que os dois países precisam tomar medidas para resolver a disputa nuclear. “A tarefa urgente é que os EUA tomem medidas para suspender suas sanções unilaterais ao Irã e jurisdições sobre terceiros. E que o Irã retome o cumprimento recíproco de seus compromissos.” / NYT

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.