China julga mulher de ex-líder do PC em 6 horas

Gu Kailai não rebateu acusação de ter envenenado um empresário britânico e espera sentença; caso expôs corrupção na administração comunista

CLÁUDIA TREVISAN, CORRESPONDENTE / PEQUIM, O Estado de S.Paulo

10 de agosto de 2012 | 03h06

A advogada Gu Kailai não refutou ontem a acusação de que envenenou o empresário britânico Neil Heywood em novembro do ano passado no quarto de um hotel da megacidade de Chongqing, que até março era governada por seu marido, Bo Xilai. A audiência do julgamento mais célebre da China em anos durou apenas seis horas, mas a provável sentença condenatória ainda não foi anunciada.

O nome de Bo Xilai não foi mencionado na cobertura da sessão divulgada pela agência oficial de notícias Xinhua, única fonte de informação sobre o assunto utilizada pela imprensa chinesa. A narrativa oficial do julgamento ignorou suspeitas de corrupção e se ateve estritamente ao homicídio. Gu Kailai, de 53 anos, foi apontada como autora do crime, do qual teria sido cúmplice o funcionário do comitê do Partido Comunista em Chongqing, Zhang Xiaojun, também julgado ontem.

Segundo a acusação, a advogada matou Heywood, de 41 anos, por temer pela segurança de seu filho, Bo Guagua, com quem o britânico teria conflitos em torno de "interesses econômicos". A natureza das supostas divergências não foi revelada no relato oficial do julgamento - a imprensa estrangeira não teve acesso à sessão.

Heywood conheceu Gu nos anos 90, quando viveu na cidade de Dalian, que então era comandada por Bo Xilai. O britânico tornou-se próximo do casal e os ajudou a obter vagas para Bo Guagua em colégios de elite na Grã-Bretanha. Existe a suspeita de que ele também teria feito transferências ao exterior de recursos obtidos ilegalmente pela família, o que foi ignorado no julgamento de ontem. Na época de sua morte, o britânico vivia em Pequim com sua mulher e dois filhos. De acordo com a acusação, Heywood viajou a Chongqing a convite de Gu, que despachou Zhang para acompanhá-lo desde a capital chinesa.

No dia 13 de novembro, a advogada foi ao quarto de hotel do britânico. "Depois que Heywood ficou bêbado, vomitou e pediu água, ela colocou o veneno que havia preparado em sua boca", afirmou, em texto, a agência oficial Xinhua. Segundo a agência, o veneno foi levado ao local por Zhang.

Comunicado divulgado pela corte da cidade de Hefei, onde o caso foi julgado, disse que o estado mental de Gu era instável na época do crime e "seu autocontrole estava mais fraco do que o de uma pessoa normal". As informações sobre a fragilidade emocional e a suposta preocupação com a segurança do filho são indícios de que Gu poderá se livrar da pena de morte, aplicada normalmente em casos de homicídio.

A corte de Hefei, capital da província de Anhui, julga hoje quatro policiais de Chongqing acusados de ocultar o assassinato de Heywood. Em novembro, a morte do inglês foi apresentada como resultado do consumo excessivo de álcool. Não houve nenhuma investigação e seu corpo foi cremado.

Indícios. A suspeita de homicídio só apareceu em fevereiro, quando o ex-assessor de Bo Xilai, Wang Lijun, se refugiou por 36 horas no Consulado dos Estados Unidos em Chengdu, a capital da província de Sichuan, localizada a 270 quilômetros de Chongqing.

Quatro dias antes, Wang havia sido afastado por Bo Xilai do cargo de chefe da segurança pública da megacidade, aparentemente por ter responsabilizado Gu pela morte de Heywood. Wang teria feito uma autópsia ou tido acesso a evidências que comprovariam o envenenamento. O ex-chefe da polícia buscou proteção dos americanos por temor de também ser assassinado. Entregue às autoridades de Pequim, Wang está detido em local desconhecido.

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