REUTERS/Tyrone Siu
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China mantém política de 'covid zero', mas alguns se perguntam por quanto tempo

Mais pessoas estão sendo apanhadas na rigorosa rede de controle do vírus e algumas acreditam que o objetivo do governo não é sustentável

Amy Qin e Amy Chang Chien, The New York Times, O Estado de S.Paulo

23 de janeiro de 2022 | 05h00

Em um bairro comercial chamativo de Xangai, cerca de 40 pessoas que estavam em uma loja da Uniqlo foram informadas de que passariam a noite lá. Um caso suspeito de covid foi rastreado até a loja.

Em outra parte da mesma cidade, Anna Rudashko foi instruída a retornar a um prédio de escritórios que ela havia visitado para uma reunião no dia anterior. Ela passou 58 horas lá com mais de 200 estranhos, esperando os resultados dos exames.

Na Província de Shaanxi, Zhao Xiaoqing estava em um segundo encontro, visitando um homem na casa de seus pais, quando as autoridades locais fecharam o bairro. Ela ficou em quarentena com eles por quase 30 dias. Felizmente, ela disse: “Eu me dei bem com a família dele.”

A China, que mantém amplamente o coronavírus sob controle desde 2020, está se esforçando cada vez mais para conter os surtos que proliferaram em todo o país nas últimas semanas, e um número crescente de pessoas vem passando por alterações súbitas em suas vidas como resultado dessa política.

Pelo menos 20 milhões de pessoas em três cidades estavam sob um lockdown total na semana passada, e muitas outras cidades em todo o país foram submetidas a lockdowns parciais e testes em massa. Durante o mês passado, pelo menos 30 grandes cidades chinesas relataram casos de covid transmitidos localmente.

Os números de casos são minúsculos para os padrões globais, e nenhuma morte por covid foi relatada na onda atual da China. Na sexta-feira, as autoridades de saúde relataram um total de 23 novos casos transmitidos localmente em cinco cidades.

Dificuldades.

Mas muitos casos envolveram a variante Ômicron altamente transmissível e, a cada dia que passa, a busca obstinada do governo pela covid zero parece mais difícil de alcançar. Muitos se perguntam por quanto tempo isso pode ser mantido sem causar problemas generalizados e duradouros na economia e na sociedade da China.

 “Neste momento, é quase como um último esforço, ou certamente um esforço muito teimoso e persistente, para evitar o vírus”, disse Dali Yang, professor de ciência política da Universidade de Chicago. “Eles estão realmente presos.”

Até agora, a liderança só reforçou sua estratégia – que depende de testes em massa, controles rigorosos de fronteiras, rastreamento extensivo de contatos e lockdowns rápidos – para extinguir surtos emergentes.

Aumentando o senso de urgência, 24 casos transmitidos localmente foram descobertos em Pequim, onde os Jogos Olímpicos de Inverno devem começar em duas semanas. Vários bairros foram isolados e as autoridades aumentaram os requisitos de testes para entrar e sair da capital. Autoridades disseram nesta semana que os ingressos para os Jogos não seriam vendidos ao público em razão de preocupações com o vírus.

As autoridades sugeriram que o primeiro caso da Ômicron em Pequim pode ter vindo de um pacote do Canadá. Desde então, eles pediram às pessoas em toda a China que tenham cuidado ao abrir correspondências do exterior. Em Pequim, as correspondências estão sendo submetidas a pelo menos quatro rodadas de desinfecção, embora especialistas digam que o risco de contrair o vírus em superfícies, especialmente papel ou papelão, é muito baixo.

“Parece improvável para mim, mas não diria que é impossível”, disse Ben Cowling, epidemiologista da Universidade de Hong Kong. “Eu certamente sugeriria que as autoridades continuassem procurando, caso haja outras coisas que possam explicar isso.”

Culpas.

As autoridades chinesas defenderam anteriormente a teoria da conspiração de que o vírus havia sido trazido para Wuhan, onde surgiu pela primeira vez, por militares americanos. Mais recentemente, o governo central culpou autoridades locais em Xi'an por interrupções no fornecimento de alimentos e assistência médica quando a cidade de 13 milhões de habitantes foi fechada em dezembro.

 “Pequim está achando cada vez mais difícil defender sua política de covid zero”, disse Lynette H. Ong, professora de ciência política da Universidade de Toronto. “Os custos estão tão altos que eles estão começando a culpar não apenas as autoridades locais, mas também os estrangeiros – nunca é culpa dos formuladores de políticas centrais.”

Muitos na China apoiam a estratégia de covid zero, que pode ter salvado centenas de milhares de vidas e permitiu que a maioria das pessoas vivesse normalmente durante a pandemia. Mas os recentes surtos levaram à frustração e reclamações à medida que mais e mais pessoas foram apanhadas na rede de controle do vírus.

Este mês, Lilian Lin, de 29 anos, foi forçada a suspender seu modesto negócio online de venda de bens básicos como toalhas e artigos de papelaria depois que ficou trancada em seu apartamento na cidade de Tianjin, no norte, por causa de um conjunto de casos no bairro.

Para piorar a situação, voltar para casa no próximo feriado do Ano Novo Lunar parece cada vez mais improvável: restrições também foram impostas em sua cidade natal, Zhengzhou.

"Sei que outras pessoas estão em uma situação pior", disse Lin, que estava em seu apartamento há mais de 10 dias, apenas com suas plantas como companhia. “Mas estou tão cansada dos intermináveis lockdowns.”

Em Xi'an e em outras cidades, autoridades disseram nesta semana que as restrições logo serão aliviadas porque o número de casos está caindo. Mas, no longo prazo, existe a preocupação de que a China, o último grande país a se apegar a uma estratégia covid zero, possa ter se encurralado.

Embora mais de 80% da população – mais de 1,2 bilhão de pessoas – tenha recebido pelo menos duas doses de vacina, a maioria recebeu vacinas fabricadas na China, e estudos descobriram que elas fornecem pouca defesa contra infecções pela Ômicron. Especialistas especulam que os líderes da China podem estar esperando por uma vacina ou terapêutica mais eficaz, ou esperando o surgimento de uma cepa mais branda do vírus.

Riscos.

Até então, dizem os analistas, é improvável que o aumento das reclamações convença Pequim a mudar sua política de covid. O Eurasia Group, uma consultoria, recentemente colocou a estratégia de tolerância zero da China no topo de sua lista de riscos políticos para o ano, sugerindo que isso acabaria saindo pela culatra para o país e abalaria a economia global.

 “A política de maior sucesso no combate ao vírus tornou-se a pior”, escreveram os autores do relatório, Ian Bremmer e Cliff Kupchan.

As histórias que surgiram dos lockdowns variaram do trágico, como a das pessoas que tiveram assistência médica negada em Xi'an, ao absurdo e até mesmo ao encantador.

Zhao, de 28 anos, encontrou Zhao Fei apenas uma vez, em um encontro às cegas, antes de visitar a casa da família dele na cidade de Xianyang, na Província de Shaanxi, no mês passado. O lockdown instantâneo das autoridades a manteve lá por quatro semanas e, ao que parece, mudou a vida de ambos. Ela disse que ele lentamente conquistou seu coração, e eles planejam ficar noivos em breve.

"Muitos amigos estavam curiosos para saber se o encontro às cegas foi um sucesso", disse Zhao, radiante, em um vídeo na rede social Douyin na semana passada. “Claro que foi.” Outros tiveram experiências menos agradáveis.

Rudashko, de 37 anos, de Xangai, estava se preparando para dormir na sexta-feira retrasada quando recebeu um e-mail de seu empregador. No dia anterior, ela havia ido a um prédio de escritórios para uma reunião de uma hora, e agora estava sendo instruída a voltar lá para testes e uma breve quarentena. Alguém que havia sido exposto a uma pessoa com covid estava no mesmo andar do prédio, em um dia diferente.

Rudashko passou aquela noite, e a seguinte, no escritório com mais de 200 pessoas que ela não conhecia. Durante 58 horas, eles jogaram cartas, assistiram a filmes, beberam vinho e comeram frios de um restaurante italiano. Rudashko dormiu em um saco de dormir perto da janela da cozinha do escritório. Uma pessoa levou uma barraca; um casal trouxe seu cachorro. Não havia chuveiros.

"O clima era 'é o que é, então vamos aproveitar ao máximo'", disse Rudashko por telefone, agora no meio de uma quarentena domiciliar obrigatória de 12 dias.

Ela disse que a pessoa que poderia ter sido exposta ao vírus acabou testando negativo. A experiência deixou Rudashko sentindo que a política de covid da China era “pouco realista”.

 “Eles estão realmente tentando o zero, mas isso não está acontecendo”, ela disse. “E parece que não há fim à vista.” /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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