China mobiliza tropas para conter protestos em Xinjiang

Forças de segurança ocupam Urumqi; conflito étnico faz presidente chinês voltar antes da reunião do G-8

08 de julho de 2009 | 07h39

  Foto: Reuters

 

  PEQUIM- A China mobilizou centenas de oficiais das forças de segurança na cidade de Urumqi, capital da província de Xinjiang, para tentar encerrar a onda de violência étnica que atingiu a região. O presidente chinês, Hu Jintao, cancelou sua participação no encontro do G8 e retornou as pressas à China para lidar com os confrontos, informou a imprensa estatal chinesa nesta quarta-feira, 8.

 

Veja também:

Centro de imprensa facilita controle do regime

lista Entenda: Xinjiang, área de maioria muçulmana que incomoda Pequim

 

A onda de violência que preocupa as autoridades chinesas começou no domingo na cidade de Urumqi, quando integrantes da minoria étnica muçulmana uigur entraram em confronto com chineses da etnia han, que representam cerca de 90% da população. Mais de 156 pessoas morreram e mil ficaram feridas até o momento, de acordo com dados oficiais. A polícia deteve 1,4 mil suspeitos, que estão sendo interrogados. O governo impôs toque de recolher às 21 horas e manteve o bloqueio à internet. As autoridades ainda não explicaram por que houve tantas mortes em um protesto que reuniu entre mil e, no máximo, 3 mil pessoas.

 

A capital de Xinjiang despertou em meio a uma calma tensa. As forças armadas patrulhas as ruas com veículos blindados, enquanto helicópteros do Exército sobrevoam Urumqi. Armados com semiautomáticas e escudos, os militares reforçam a segurança e reprimem qualquer inicio de protesto. Milhares de soldados ainda fecharam o centro da cidade durante as 11 horas em que o toque de recolher este em vigor. A cidade está sob forte vigilância, como se estivesse sob lei marcial, embora o governo ainda não tenha decretado este estado.

 

Centenas de muçulmanos chineses da etnia uigur, portando armas improvisadas, voltaram a desafiar as forças policiais nesta quarta-feira. Cerca de 200 uigures, armados com paus, pedras e bastões, começaram a protestar na frente de uma barreira policial que separa os bairros onde eles moram de uma área habitada pela etnia han. Os uigures gritaram para os policiais, mas não houve violência física. Depois de aproximadamente 15 minutos, a polícia retirou os jornalistas estrangeiros do local, impedindo-os de registrar o confronto. Mais cedo, um pequeno grupo de uigures havia dirigido insultos e acusações aos hans que estavam do outro lado da barreira policial.

 

O presidente chinês estava na Itália, onde participaria da reunião do G8 na quinta-feira. Devido à sua ausência, a China agora será representada pelo conselheiro de Estado Dai Bingguo. Após a Itália, Hu Jintao passaria por Portugal, mas a viagem a Lisboa também foi cancelada e não há previsão de uma nova data para a visita. Hu não deixou nem mesmo seu ministro das Relações Exteriores nem outro funcionário de primeiro escalão como seu representante na cúpula de Áquila. O escolhido foi o conselheiro político da embaixada chinesa em Roma, Tang Heng. A embaixada emitiu uma nota na qual explicou que a partida se deveu a "questões internas e à situação em Xinjiang".

 

O retorno de Hu Jintao se segue a novos protestos ocorridos na terça-feira, quando manifestantes de ambas as etnias foram às ruas de Urumqi. Na manhã de terça-feira, mulheres uigures pediram o retorno dos maridos, filhos e irmãos que estão entre os 1,4 mil detidos pela polícia. À tarde, chineses da etnia han saíram armados com facas e bastões ameaçando revidar se fossem novamente agredidos. Eles gritavam frases como "Fora, uigures" e quebraram fachadas de lojas e estabelecimentos no bairro da minoria.

 

Os confrontos fatais em Urumqi foram desencadeados pela morte de dois uigures em uma briga numa fábrica de brinquedos na província de Guangdong, no sul da China, no final de junho. Na ocasião, operários de ambas as etnias se enfrentaram depois que falsos rumores publicados na internet acusaram trabalhadores uigures de ter violentado jovens chinesas Han. Imagens dos uigures sendo perseguidos e mortos pelos colegas han foram capturadas por celular e distribuídas na internet, o que fomentou a raiva entre os integrantes da minoria étnica.

 

De acordo com fontes uigures, a violência estourou na noite de domingo depois que a policia tentou reprimir uma manifestação pacífica que pedia pelo julgamento e punição dos chineses envolvidos no assassinato dos operários em Guangdong. O governo da China, entretanto, afirma que os confrontos do fim de semana foram arquitetados pela líder exilada Rebyia Kadeer, que teria utilizado o incidente de Guangdong como pretexto.

 

Os uigures são muçulmanos e representam 45% da população de 20 milhões de Xinjiang. Estimulados pelo governo, milhões de chineses han migraram para a província, a maior da China e onde estão 15% das reservas de petróleo e 20% das reservas de gás chinesas. Nos anos 50, a proporção de uigures na população era de 74% e os hans não passavam de 10%.

 

(Com Denise Chrispim Marin e Cláudia Trevisan, de O Estado de S. Paulo, e BBC Brasil)

Tudo o que sabemos sobre:
China

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.