Alex Plavevski / EPA / EFE
Alex Plavevski / EPA / EFE

Hong Kong não será repetição de Praça da Paz Celestial, diz jornal chinês

Publicação faz rara referência ao massacre para afirmar que intervenção armada no território não seria feita da mesma forma que a ocorrida em junho de 1989; na quinta, Pequim concentrou tropas na fronteira e advertiu que não ficará 'de braços cruzados'

Redação, O Estado de S.Paulo

16 de agosto de 2019 | 02h42
Atualizado 16 de agosto de 2019 | 11h34

HONG KONG - Um jornal da China fez nesta sexta-feira, 16, uma rara referência à repressão na Praça da Paz Celestial (Tiananmen), um tabu no país, para afirmar que uma intervenção armada em Hong Kong não repetirá o massacre de junho de 1989 contra manifestantes civis em Pequim.

"Pequim não decidiu intervir pela força para acabar com os distúrbios em Hong Kong, mas esta opção - evidentemente - está disponível", destaca o editorial do jornal em língua inglesa Global Times. Mas mesmo que o governo decida enviar tropas contra os manifestantes, "o incidente em Hong Kong não será uma repetição do incidente político de 4 de junho de 1989", afirma a publicação.

Não há um número oficial da sangrenta repressão na Praça Tiananmen, mas alguns especialistas falam em mais de mil mortos.

Na quinta-feira, a China concentrou tropas na fronteira com Hong Kong e advertiu que não ficará "de braços cruzados" se o protesto pró-democracia se degradar no território semiautônomo, causando "preocupação" do presidente americano, Donald Trump, pelo risco de uma repressão violenta.

Se a situação "piorar", Pequim tem "meios e poder suficientes para reprimir os distúrbios rapidamente", afirmou o embaixador chinês em Londres, Liu Xiaoming.

Após dois meses de manifestações em Hong Kong a favor da democracia, a China trouxe de volta nos últimos dias o fantasma de uma intervenção para restabelecer a ordem no território.

O assessor de segurança nacional da Casa Branca, John Bolton, pediu à China para não produzir um novo massacre. "Os chineses têm de tomar muito cuidado com os passos que derem porque o povo dos Estados Unidos se lembra da Praça da Paz Celestial, lembram a imagem do homem de pé em frente à fileira de tanques", disse ele em entrevista à Voz da América.

Trump se declarou "preocupado" com o risco de uma repressão violenta dos protestos em Hong Kong e ressaltou que pretende conversar "em breve" com o presidente chinês, Xi Jinping. "Gostaria de verdade ver a China resolver de uma forma humana o problema em Hong Kong", acrescentou.

Recado da China

Na quinta-feira, centenas de agentes da Polícia Armada Popular da China realizaram exercícios em um estádio esportivo de Shenzhen. Diplomatas asiáticos e ocidentais em Hong Kong disseram que Pequim quer fazer uma demonstração de força e enviar um recado, mas dificilmente enviará o Exército Popular de Libertação às ruas da cidade, pois tem consciência das consequências.

Era possível ver homens uniformizados em um estádio do Centro Esportivo da Baía de Shenzhen durante a manhã, e um jornalista da agência de notícias Reuters ouviu gritos e assobios. Mais tarde, a polícia realizou exercícios nos quais se dividiu em dois grupos, um deles usando camisetas pretas semelhantes às usadas por alguns manifestantes de Hong Kong. O outro grupo continuou de uniforme, empunhou escudos de contenção de multidões e praticou arremetidas contra o primeiro.

"Esta é a primeira vez que vi uma reunião de larga escala como essa", disse Yang Ying, recepcionista de um centro de bem-estar instalado dentro do complexo de lojas do estádio. "Houve exercícios no passado, mas normalmente eles envolvem a polícia de trânsito", acrescentou. "Nossos amigos, redes sociais, todos dizem que é por causa de Hong Kong."

Dez semanas de protestos cada vez mais violentos entre a polícia e manifestantes mergulharam o território em sua pior crise desde que a China o recebeu de volta do Reino Unido em 1997. Os protestos representam um dos maiores desafios a Xi, desde que ele tomou posse, em 2012.

No estacionamento do estádio havia mais de 100 veículos paramilitares, incluindo caminhões de tropas, blindados de transporte de pessoal, ônibus e jipes. O Global Times, tabloide nacionalista ligado ao Partido Comunista, publicou um vídeo nesta semana que mostrou colunas de caminhões e blindados de transporte de pessoal percorrendo a cidade, e seu editor, Hu Xijin, descreveu a movimentação no Twitter como um "recado claro para os agitadores de Hong Kong". / AFP e REUTERS

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