China pune advogado de sobrinho de ativista cego

Profissional que se voluntariou para defender Chen Kegui, acusado de esfaquear policiais, teve licença cassada e vários outros foram ameaçados

CLÁUDIA TREVISAN, CORRESPONDENTE / PEQUIM, O Estado de S.Paulo

12 Maio 2012 | 03h07

Advogados chineses que se dispuseram a defender o sobrinho do ativista cego Chen Guangcheng estão sendo ameaçados com a cassação de suas licenças e ao menos um deles já teve o documento confiscado.

Vários profissionais apresentaram-se como voluntários no caso de Chen Kegui, acusado de homicídio doloso por ferir com uma faca de cozinha três homens que invadiram sua casa na noite do dia 26, quando foi revelada a fuga de seu tio da prisão domiciliar ilegal em que era mantido havia 19 meses.

"Autoridades disseram-me para não me envolver no caso de Chen Kegui, pois é uma questão 'política'. Eles não me deixam ir a Pequim e meu telefone está grampeado", disse ao Estado o advogado Liu Weiguo, da Província de Shandong, onde fica a vila rural em que a família Chen vive.

Em entrevista ao Estado publicada na edição de ontem, Chen Guangcheng afirmou que a "vingança" contra sua família já havia começado e disse temer pela segurança de seu sobrinho.

Liu ressaltou que nenhum dos três homens feridos corre risco de morte e apenas um deles está internado em um hospital. Segundo o advogado, eles faziam parte de um grupo de aproximadamente 12 pessoas que invadiu a casa de Kegui durante a noite. "Ele estava com a mãe e seu filho e a gangue tentou agarrá-los enquanto a mãe implorava para que parassem. Chen Kegui conclui que tinha de proteger sua família e pegou duas facas na cozinha."

O sobrinho de Chen Guangcheng está preso na cidade de Linyi, dirigida pelos mesmos líderes que comandaram a perseguição à qual seu tio foi vítima desde 2005, quando expôs milhares de casos de abortos e esterilizações forçadas na região.

Até agora, nenhum defensor conseguiu vê-lo. O advogado Chen Wuquan pretendia viajar de Guangzhou (Cantão), no sul da China, para Shandong no dia 3, com o objetivo de assumir o caso, mas foi impedido pelas autoridades locais.

No mesmo dia em que pretendia partir, ele foi comunicado de que sua licença profissional estava confiscada por causa de sua suposta ausência em exame de inspeção realizado no ano passado. Depois que ele comprovou que havia realizado o teste, outra acusação de irregularidade foi apresentada e sua licença continua suspensa. "Tenho certeza de que não a devolverão antes do julgamento do caso de Chen Kegui. Portanto, não posso defendê-lo. Mas acredito que outros advogados vão lutar por ele. Há tantos advogados e não é possível que eles confisquem a licença de todos", disse ao Estado.

Liu Weiguo afirmou que os advogados pretendem sustentar que Chen Kegui agiu em legítima defesa. Mas, para isso, terão de ser capazes de assumir o caso. "Nós não vamos nos submeter às ameaças. Neste momento, vários advogados de diversas regiões do país estão a caminho de Shangong para atuar de maneira voluntária no caso", ressaltou.

Os advogados não são alvo apenas de ameaças. Jiang Tianyong foi levado por policiais à paisana na semana passada, quando tentava visitar Chen Guangcheng no hospital onde ele está internado em Pequim. Espancado, ele perdeu momentaneamente a audição e foi proibido de buscar socorro médico por seguranças que estavam na porta de sua casa. No dia seguinte, foi obrigado a deixar Pequim e está impedido de se juntar aos esforços de defesa de Chen Kegui. "O grupo de advogados está aberto a todos e dezenas já se apresentaram como voluntários", declarou Jiang ao Estado.

Chen Guanfu, pai de Chen Kegui e irmão de Chen Guangcheng, foi preso logo após a fuga do ativista. Libertado na semana passada, ele continua impedido de deixar a vila onde a família vive. "Não sei se ele vai ser acusado de algum crime", ressaltou Liu.

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