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China reforça nacionalismo com exibição de força

Para analistas, parada militar de quinta-feira ajuda a desviar foco dos problemas econômicos ao mesmo tempo em que projeta poderio

Renata Tranches, O Estado de S. Paulo

06 Setembro 2015 | 07h00

Pensada para projetar uma China como potência militar na tensa região Ásia-Pacífico, a grande parada comandada pelo presidente Xi Jinping na quinta-feira foi também um exercício de fortalecimento das bases do Partido Comunista, avaliaram especialistas ao ‘Estado’.

Com as incertezas da desaceleração da economia acendendo o farol amarelo para o crescimento econômico, um dos pilares do partido no poder há mais de 60 anos, o manifesto de um nacionalismo exacerbado, segundo os analistas, entrou em cena na Praça Tiananmen. 

Sob um número impressionante de soldados – 200 mil – , o ato foi planejado para celebrar com grande pompa o fim da 2.ª Guerra e a rendição do Japão em 1945. O historiador da Universidade de Oxford Rana Mitter explicou que foi a primeira vez que o Partido Comunista fez uma comemoração oficial pelo fim da 2.ª Guerra, o que significou reconhecer o papel do Partido Nacionalista para o fim do conflito. “Marca uma significativa mudança em termos de como a China usa seu passado histórico para falar sobre o presente”, afirmou Mitter, autor de Forgotten Ally: China’s World War Two.

 

Tratou-se de uma grande exibição de força para o mundo, mas mais ainda para o povo chinês, segundo Robert Manning, analista do Atlantic Council. “Ajudou a reforçar a legitimidade do Partido Comunista, que tem como base o nacionalismo e o crescimento econômico. Agora que o crescimento econômico passa por problemas, o nacionalismo tem se tornado mais importante”, avalia Manning.

Os analistas lembraram, porém, que a ênfase na defesa e na projeção da China como uma potência militar ganhou prioridade no governo de Xi, que liderou na quinta-feira sua primeira parada militar desde que chegou ao poder, em 2012. Uma política que se sustenta no 12.º Plano Quinquenal (2010-2015), que dedicou dois capítulos ao desenvolvimento e modernização da Defesa nacional. 

Internacionalmente, segundo Mitter, Xi mostra que seu país ganha força na região, onde gerencia tensões com vizinhos em meio a algumas disputas territoriais. Mas projeta para seu público que a “China não será dominada por outra potência no caso de um conflito com o Japão”, como ocorreu nos anos 30 e 40, afirma o historiador. A ideia é reforçar a reivindicação chinesa a um papel geopolítico na região. 

Com o rival histórico japonês, segundo Manning, a China exercita boa parte de seu nacionalismo. “E não podemos esquecer que essa parada é sobre uma vitória sobre o Japão”, reforça o analista. Mas, para ele, essa animosidade teve seu ápice em 2012, com as disputas pelo conjunto de ilhas no Mar do Leste da China, chamadas Diaoyu pelos chineses e Senkaku pelos japoneses. 

Ali, segundo Manning, a China aprendeu uma lição, quando percebeu a queda dos investimentos japoneses em seu mercado financeiro. “Agora, Xi tenta equilibrar dois caminhos, com uma competitividade estratégica política, mas não econômica”, opina Manning, afirmando que Xi pode visitar o Japão em outubro. 

Para o analista, apesar da rivalidade histórica e da recente tensão nas relações, Xi, que anunciou um corte de 10% das tropas na quinta-feira, deverá tentar uma aproximação mais positiva com o antigo rival.

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