China rejeita multa arrecadada por dissidente

Simpatizantes de Ai Weiwei doaram US$ 1,4 milhão para o depósito que o artista, acusado de sonegação, tinha de fazer

CLÁUDIA TREVISAN, CORRESPONDENTE / PEQUIM, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2011 | 03h05

Autoridades chinesas recusaram-se ontem a aceitar o depósito de US$ 1,3 milhão que permitiria ao artista Ai Weiwei contestar administrativamente a multa de US$ 2,4 milhão que lhe é cobrada por suposta sonegação de impostos. O prazo de duas semanas para pagamento da penalidade vence hoje e o dissidente pode voltar à prisão caso deixe de realizá-lo.

Crítico contundente do governo chinês, Ai recebeu nos últimos dias US$ 1,4 milhão em doações de milhares de simpatizantes em toda a China, em um claro gesto de desafio ao governo. O dinheiro foi enviado por sistemas de pagamento online, transferências bancárias, correio ou entregue em sua casa, no distrito artístico de Caochangdi.

Ai Weiwei foi detido em abril, quando estava prestes a embarcar para Hong Kong, e passou 81 dias na prisão. O artista sustenta que a acusação de sonegação é uma tentativa de intimidá-lo e de dar um verniz de legalidade à sua prisão, que considera arbitrária. Segundo ele, todos os interrogatórios a que foi submetido nos três meses de detenção trataram de questões políticas e das opiniões que ele expressava na internet - nunca de problemas fiscais.

Pagar ou não a multa transformou-se em um dilema para o artista. Se recolher os US$ 2,4 milhões estará reconhecendo a culpa por uma acusação que contesta. Mas se rejeitar a efetuar o pagamento, ele pode voltar à prisão, desta vez com uma justificativa formal.

Mais célebre artista vivo da China, Ai Weiwei foi um dos idealizadores do Ninho de Pássaros, o estádio que se transformou em ícone da Olimpíada de Pequim. Suas obras já foram expostas no Japão, EUA, Alemanha, Grã-Bretanha, Bélgica, Holanda, França, Itália, Suíça, Israel e Brasil, onde ele participou da 29.ª Bienal de São Paulo, no ano passado. Artista multifacetado, ele se expressa por meio de instalações, escultura, fotografia, vídeo e também trabalha como arquiteto, escritor, curador e designer.

Em agosto de 2009, Ai Weiwei foi espancado pela polícia depois de tentar testemunhar em defesa do ativista Tan Zuoren, condenado a 5 anos de prisão sob acusação de subversão, após denunciar a má qualidade das escolas que foram destruídas pelo terremoto de Sichuan, em 2008, provocando a morte de quase 6 mil estudantes. No mês seguinte, Ai Weiwei foi hospitalizado na Alemanha e submetido a uma cirurgia no cérebro, onde os médicos encontraram um coágulo, criado provavelmente pelo espancamento sofrido semanas antes. Às vésperas da entrega do Prêmio Nobel da Paz a Liu Xiaobo, em 2010, Ai Weiwei foi impedido de sair da China.

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