China restringe ação de repórteres

Jornalistas trabalhando em província atingida por terremoto há um ano denunciam agressões e obstáculos

Cláudia Trevisan, O Estadao de S.Paulo

07 de maio de 2009 | 00h00

Às vésperas do primeiro aniversário do terremoto que devastou a Província de Sichuan, na região central da China, e deixou cerca de 80 mil mortos, o governo chinês está restringindo o acesso de jornalistas à área e criando obstáculos às famílias que tentam pedir na Justiça indenização pela morte de seus filhos.O Clube de Correspondentes Estrangeiros da China registrou desde 1º de abril seis casos de interferência no trabalho de repórteres enviados a Sichuan para fazer o balanço de um ano do terremoto, que se completa no dia 12. Quase todos envolveram alguma forma de agressão física aos jornalistas, ainda que ninguém tenha ficado ferido.Em março, o governo anunciou que exigiria dos repórteres que fossem a Sichuan o registro prévio juntamente às autoridades locais. Isso significa que os jornalistas devem entrar em contato e pedir autorização a cada uma das inúmeras localidades atingidas pelo tremor, em um processo que está longe de ser rápido e fácil. A entidade Human Rights Watch afirma que vários dos pais que perderam seus filhos em escolas que desabaram durante o tremor não conseguiram até hoje que as cortes chinesas aceitassem suas ações de indenização, nas quais sustentam que as mortes foram provocadas pela má qualidade das construções. O tremor de 8 graus na escala Richter destruiu 7.400 escolas e provocou a morte de 19.065 estudantes, segundo cifras divulgadas pelo governo em novembro. O número representa cerca de 20% do total de vítimas e se transformou na mais sensível questão política relacionada ao terremoto. O desabamento das escolas levantou a suspeita de que muitas haviam sido construídas com materiais de baixa qualidade, já que, em muitos casos, os edifícios ao redor permaneceram intactos.CAMPANHA DE REPRESSÃO"Não apenas há pais que têm sido ameaçados, detidos e, em alguns casos, chutados e socados por funcionários e forças de segurança, como o governo também tem pressionado muitas das famílias das vítimas a aceitar uma compensação única em troca da interrupção das demandas por uma investigação pública (das condições das mortes)", afirmou a Human Rights Watch em documento divulgado ontem. Os jornalistas também sofrem agressões, praticadas principalmente por grupos paramilitares que contam com a conivência das autoridades locais.Katri Moakkonen, repórter de uma TV finlandesa, e sua equipe foram cercados em Fuxin por cerca de dez pessoas, que tentaram arrancar os equipamentos que eles utilizavam. "Nós quase perdemos nossa câmera. Foi muito violento", disse Katri, segundo relato divulgado pelo Clube de Correspondentes. O repórter do Financial Times Jamil Anderlini foi vítima de dois episódios de interferência em menos de 24 horas.O primeiro também ocorreu em Fuxin quando ele tentava entrevistar pais de crianças que morreram durante o terremoto. Um homem tentou arrancar a câmera de vídeo do repórter e logo ganhou o apoio de 12 pessoas. No dia seguinte, outro homem impediu que Anderlini entrevistasse uma mulher que apresentou uma petição com queixas às autoridades locais. A câmera do repórter foi atirada no chão. Quando reclamou ao departamento de propaganda local, o jornalista foi informado de que a polícia poderia deter repórteres por qualquer razão. Também escutou que a polícia havia sido violenta para "protegê-lo" da mulher que havia apresentado a petição.Os outros três casos de interferência ocorreram no início de abril e, em dois deles, os chineses que davam entrevistas a jornalistas foram detidos. Em 1º de abril, um repórter francês foi detido com um casal que perdeu a filha quando a escola em que estudava desabou. O casal foi solto logo depois e o jornalista foi levado à delegacia de polícia, onde foi informado que deveria ter se registrado previamente. Em 2 de abril, um repórter alemão que entrevistava pessoas em um cemitério público acompanhado de jornalistas chineses foi retirado do local por policiais. No dia 6, uma equipe de TV alemã preparava-se para entrevistar o pai de outra criança vítima do terremoto quando o homem foi carregado por um grupo de desconhecidos. Os repórteres permaneceram detidos por cinco horas.

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