Washington Post photo by Demetrius Freeman
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China se alinha com Rússia e pede para EUA 'levarem a sério' demandas do Kremlin

Pequim se manifesta pela primeira vez e pede para dois lados deixarem de lado 'mentalidade de guerra fria'

Redação, O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2022 | 14h00

PEQUIM - Em meio a tensões e ao temor de uma guerra na Europa Oriental, a China se posicionou pela primeira vez na crise entre Rússia e Otan na Ucrânia com uma mensagem favorável às demandas de Moscou. O governo chinês instou os Estados Unidos a “levarem a sério" as preocupações de segurança do Kremlin, e acusou os dois lados de terem uma “mentalidade de Guerra Fria”.

A mensagem foi transmitida em um telefonema entre os chefes das diplomacias da China, Wang Yi, e dos Estados Unidos, Antony Blinken. A ligação, a poucos dias da cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno, abordou principalmente a crise na Ucrânia, onde a presença de dezenas de milhares de militares russos na fronteira provocam o temor de uma invasão.

“As razoáveis  preocupações de segurança da Rússia devem ser levadas a sério e resolvidas", declarou Wang a Blinken, de acordo com o comunicado divulgado pela Chancelaria chinesa após a ligação. "A segurança regional não pode ser garantida pelo fortalecimento ou, inclusive, a expansão dos blocos militares", completou, em referência à expansão da Otan para o Leste europeu, principal motivo das queixas da Rússia.

O gigante asiático, que compartilha mais de 4 mil quilômetros de fronteira com a Rússia, havia se abstido tomar partido publicamente na disputa entre Moscou e as potências ocidentais até o momento.

Segundo o comunicado, Wang também disse que "todas as partes deveriam abandonar completamente a mentalidade da Guerra Fria e formar um mecanismo de segurança europeu equilibrado, efetivo e sustentável por meio de negociações".

Além disso, o chanceler chinês também exigiu a Blinken que Washington "pare de interferir" nos Jogos Olímpicos de Inverno de Pequim e "pare de brincar com o fogo" na questão de Taiwan, cuja autonomia é apoiada pelos EUA, embora Pequim tenha como meta sua reunificação ao território chinês.

O Kremlin nega ter intenções hostis e justifica a mobilização de seu Exército pela preocupação com sua segurança ante a expansão da Otan para antigas zonas de influência soviética. Moscou considera a Ucrânia uma proteção estratégica frente a possíveis ameaças do Ocidente.

O governo de Pequim, assim como Moscou, reclama do tratamento recebido dos Estados Unidos. Pequim acusa Washington de promover uma rivalidade sistêmica por se sentir ameaçada perante o crescimento econômico chinês. Sanções contra China e Rússia também aproximaram os dois Estados.

Além disso, há paralelos entre a relação da Rússia com a Ucrânia e a da China com Taiwan. Pequim não descarta uma ação militar para reaver o controle da ilha que hoje tem um governo autônomo, assim como Moscou lamenta que a Ucrânia tenha se aproximado do Ocidente. Os EUA, por seu lado, querem evitar que a China controle o estreito vital para a navegação que a separa da ilha, o que ameaçaria a supremacia militar americana no Pacífico.

Em novembro do ano passado, os presidentes de China, Xi Jinping, e dos EUA, Joe Biden, tiveram uma reunião por videoconferência, na qual realçaram divergências, mas prometeram evitar conflitos. Segundo o comunicado, Wang reclamou dos EUA "não mudarem suas políticas" após a reunião.

"As relações continuam enfrentando novas turbulências dois meses após a reunião", disse o texto. “Biden nos garantiu que os EUA não buscam uma nova guerra fria, que não buscam mudar a China, que não procuram formar alianças para se opor à China e não apoiam a 'independência' de Taiwan. Uma mensagem diferente e positiva em relação ao governo  anterior. Mas o que o mundo vê agora é que o tom não condiz com os fatos", disse o diplomata, segundo o informe.

Na quarta-feira, 26, Washington disse esperar um possível ataque russo para "meados de fevereiro". A número dois da diplomacia americana, Wendy Sherman, afirmou que a abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim, em 4 de fevereiro, pode influenciar o calendário de Putin, para evitar ofender Xi durante este grande evento para a China.

“Tudo indica que [Putin] vai usar força militar em algum momento, talvez entre agora e meados de fevereiro”, disse Sherman.

A informação de Sherman reiterava uma notícia da Bloomberg desta semana, que informava que Xi poderia ter pedido a seu homólogo russo que não atrapalhasse a visibilidade da Olimpíada com uma ofensiva militar na Ucrânia. A China chamou a notícia de "farsa" e "provocação".

Putin deve comparecer à abertura dos Jogos, tornando-se um dos primeiros líderes internacionais a encontrar-se com Xi desde o começo da pandemia de coronavírus.

Segundo o porta-voz do Departamento de Estado, Ned Price, no telefonema com Wang, Blinken advertiu para os "os riscos econômicos e de segurança global" que uma agressão da Rússia à Ucrânia representaria, e concordou que a redução de tensões e a diplomacia são a maneira responsável de proceder.

Os Estados Unidos entregaram uma resposta por escrito a uma série de demandas feita pela Rússia para tirar as forças da Ucrânia na quarta. Moscou disse que “não tem motivos para ter otimismo”, mas vai analisar as propostas americanas. / NYT e W.POST

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