Tingshu Wang/Reuters
Tingshu Wang/Reuters

China se beneficia com necessidade do Brasil por vacinas

Saída de Trump e aumento do número de mortes pelo coronavírus ressuscitam chances da Huawei no leilão da rede brasileira de 5G

Ernesto Londoño e Letícia Casado / The New York Times, O Estado de S.Paulo

16 de março de 2021 | 05h00

RIO - A China estava na defensiva no Brasil. O governo de Donald Trump alertou aliados em todo o planeta para evitar a Huawei, a gigante chinesa das telecomunicações, denunciando a empresa como um perigoso braço do sistema chinês de vigilância.

O Brasil, pronto para constituir uma ambiciosa rede de internet sem fio 5G avaliada em bilhões de dólares, ficou abertamente do lado do presidente Trump, com um dos filhos do presidente brasileiro - Eduardo Bolsonaro, um influente congressista, por sua vez - comprometendo-se, em novembro, a criar um sistema seguro, “sem espionagem chinesa”. 

Então a política da pandemia inverteu tudo.

Com as mortes causadas pela covid-19 atingindo os maiores índices já registrados, e uma perigosa nova variante de vírus espreitando o Brasil, o ministro das Comunicações, Fábio Faria, foi a Pequim em fevereiro, encontrou-se com executivos da Huawei em seus escritórios e fez uma solicitação muito incomum para uma empresa de telecomunicações. 

“Aproveitei a viagem para pedir vacinas, o que todo mundo está implorando”, afirmou o ministro, ao relatar sua reunião com a Huawei.

Duas semanas depois, o governo brasileiro anunciou as regras para o leilão de 5G, um dos maiores do mundo. A Huawei, que poucos meses antes parecia barrada pelo governo, estará autorizada a participar.

A reviravolta é um sinal de como a política na região foi sacudida pela pandemia, assim como pela saída de Trump da Casa Branca - e como a China começou a virar a maré.

A China gastou meses rebatendo ressentimentos e desconfianças por ter sido o lugar onde a pandemia começou, mas, nas semanas recentes, seus diplomatas, executivos de farmacêuticas e outros intermediadores poderosos têm recebido numerosas solicitações de autoridades desesperadas na América Latina, onde a pandemia está causando um dano devastador, crescente dia a dia.

A capacidade da China de produzir vacinas em massa e enviá-las aos países em desenvolvimento - enquanto países ricos, incluindo os Estados Unidos, estão acumulando muitos milhões de doses para si mesmos - ofereceu aos chineses uma abertura diplomática e de relações públicas que Pequim prontamente aproveitou.

De repente, o governo chinês encontra-se exercendo uma enorme e renovada influência na América Latina, região onde a China possui uma vasta gama de investimentos e ambições para expandir comércio, parcerias militares e laços culturais.

No ano passado, o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, um líder de direita que se aliou a Trump, desacreditou a vacina chinesa durante os testes clínicos no Brasil, e impediu um esforço do Ministério da Saúde de encomendar 45 milhões de doses. 

“O povo brasileiro NÃO SERÁ COBAIA DE NINGUÉM”, escreveu ele no Twitter.

Mas, com Trump fora do jogo e os hospitais brasileiros sobrecarregados com a alta nas infecções, o governo de Bolsonaro se mexeu para restabelecer as pontes com os chineses e pediu a eles que apressem o envio de dezenas de milhares de carregamentos de vacinas, assim como de insumos para a produção em massa do imunizante no Brasil.

O impacto preciso da solicitação de vacinas à Huawei e da inclusão da empresa no leilão de 5G é incerto, mas sua cronologia é marcante, parte de uma mudança drástica na posição do Brasil em relação à China. O presidente, seu filho e o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, pararam subitamente de criticar a China, enquanto autoridades do governo federal com caminhos abertos entre os chineses, como Faria, trabalharam ferozmente pela aprovação de novos envios de vacinas. Milhões de doses chegaram nas semanas recentes.

“O desespero na América Latina em relação às vacinas cria uma posição perfeita para os chineses”, afirmou Evan Ellis, professor de assuntos latino-americanos do Colégio de Guerra do Exército dos Estados Unidos e especialista nas relações da região com a China.

Antes das primeiras vacinas saírem das fábricas, a Huawei parecia estar perdendo a competição do 5G no Brasil, jogada para escanteio pela campanha do governo Trump contra a empresa. O maior país da América Latina estava a poucos meses de fazer o leilão para a criação de sua rede de 5G, uma abrangente atualização que tornará as conexões sem fio mais rápidas e acessíveis.

A Huawei - juntamente com duas concorrentes europeias, Nokia e Ericsson - ambiciona um papel de protagonista na parceria com as empresas de telecomunicações locais para a construção da infraestrutura. Mas a empresa chinesa precisava da luz verde das autoridades reguladoras brasileiras para participar do mercado.

O governo Trump se mobilizou agressivamente para impedi-la. Durante uma visita ao Brasil, em novembro, Keith Krach, então a principal autoridade do Departamento de Estado para política econômica, qualificou a Huawei como pária da indústria que tinha de ser banida das redes de 5G.

“Não podemos confiar ao Partido Comunista Chinês nossas mais sensíveis informações e propriedades intelectuais”, afirmou ele em um discurso, dia 11 de novembro, no qual ele se referiu à Huawei como “o alicerce do estado de vigilância do PCC”.

Krach argumentou que "países livres” precisavam concordar em formar uma coalizão por uma “rede limpa”, que excluísse a Huawei, porque “nossa corrente de segurança é tão forte quanto seu elo mais fraco”.

Semanas após a visita, o Brasil parecia embarcado nos esforços de Washington de banir a Huawei. Em um comunicado emitido após a reunião com Krach, o Ministério das Relações Exteriores brasileiro afirmou que o Brasil “apoia os princípios contidos da proposta 'Clean Network’ (Rede Limpa) feita pelos Estados Unidos”.

Eduardo Bolsonaro, filho do presidente que liderava a Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados, afirmou em um tuíte que o Brasil apoiaria o esforço de Washington.

Oportunidade de mudar

A China já tinha sido desprezada em alguns rincões da América Latina no início da pandemia, enquanto preocupações com a possibilidade de o país oriental ter sido descuidado por deixar o vírus ultrapassar suas fronteiras criavam raízes. A reputação de Pequim tomou um golpe adicional no Peru, após a China ter exportado testes de covid baratos e não confiáveis, que se tornaram um erro precoce nos esforços do país latino-americano de controlar o contágio.

Mas a China encontrou uma oportunidade de mudar essa narrativa no início do ano, quando sua CoronaVac se tornou a vacina mais barata e acessível para os países em desenvolvimento.

Com a pandemia sob controle na China, a Sinovac, fabricante da CoronaVac, começou a enviar milhões de doses para o exterior, oferecendo amostras grátis a 53 países e exportando para 22 países que fizeram encomendas.

No fim de fevereiro, quando as primeiras doses da vacina chinesa eram aplicadas no Brasil, a agência reguladora das telecomunicações do país anunciou as regras para o leilão de 5G, marcado para ocorrer em julho, que não excluem a Huawei.

A mudança de posição do Brasil reflete como a campanha contra a Huawei liderada por Trump perdeu força desde que ele foi derrotado na eleição de novembro. O Reino Unido afirmou que não banirá equipamentos fabricados pela Huawei de sua nova rede de 5G de alta velocidade. A Alemanha sinalizou uma abordagem similar à dos britânicos.

Thiago de Aragão, analista de risco político com base em Brasília que estuda as relações da China na América Latina, afirmou que dois fatores pouparam a Huawei de uma derrota humilhante no Brasil. A eleição do presidente Biden, que criticou duramente o comportamento do Brasil na área ambiental, diminuiu o entusiasmo do governo brasileiro em relação ao alinhamento com Washington, afirmou ele, e a habilidade da China de viabilizar ou impedir a primeira fase do esforço de vacinação no Brasil, que tornou insustentável a perspectiva de o País enfurecer os chineses por banir a Huawei.

“Eles estavam diante da ruína certa em outubro e novembro e agora estão de volta ao jogo”, afirmou Aragão a respeito da Huawei.

Em uma entrevista, Faria afirmou que não houve nenhum toma-lá-dá-cá em seu pedido de ajuda à Huawei em relação às vacinas. Na verdade, afirmou, ele também pediu para executivos de empresas de telecomunicações da Europa ajudarem o Brasil a obter doses de imunizantes.

“Não foi colocada na mesa a condição de trocar as vacinas pelo 5G”, afirmou ele, qualificando o pedido de ajuda em relação aos imunizantes como apropriado.

Em 11 de fevereiro, Faria postou uma carta do embaixador da China no Brasil, na qual o chinês mencionou o pedido e escreveu que dá “grande importância a esse assunto”.

Em um comunicado, a Huawei não informou se vai fornecer vacinas diretamente, mas afirmou que a empresa poderia ajudar com a “comunicação aberta e transparente em algum tópico que envolva os dois governos”.

A China é também o principal fornecedor de vacinas ao Chile, que organizou a mais agressiva campanha de inoculação da América Latina, e está mandando milhões de doses a México, Peru, Colômbia, Equador e Bolívia.

Como um sinal de que a influência da China é crescente, o Paraguai, onde os casos de covid-19 estão aumentando, tem enfrentado dificuldades para obter acesso às vacinas chinesas, porque é um dos poucos países no mundo que mantêm relações diplomáticas com Taiwan, que a China considera parte de seu território.

Em uma entrevista, o ministro das Relações Exteriores do Paraguai, Euclides Acevedo, afirmou que seu país está buscando negociar acesso à CoronaVac por intermédio de outros países. Posteriormente, ele fez uma extraordinária proposta para a China, que há anos tenta convencer os poucos países que ainda reconhecem Taiwan a mudar suas alianças.

“Esperamos que a relação não se limite a vacinas, mas tome outra dimensão nas esferas econômica e cultural”, afirmou ele. “Devemos estar abertos a todos os países na busca por cooperação, e, para tanto, devemos de ter uma visão pragmática.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

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