China se cala antes de teste de Pyongyang

Após EUA e Rússia recusarem convite para verificar teste, Pequim enfrenta dilema

CLÁUDIA TREVISAN, LISANDRA PARAGUASSU , ENVIADAS ESPECIAIS / PYONGYANG, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2012 | 03h07

Nenhum país aceitou até agora o convite da Coreia do Norte de enviar observadores ao lançamento de satélite previsto para ocorrer entre os dias 12 e 16, em um gesto de condenação do evento pela comunidade internacional. Principal aliada do recluso país, a China ainda não anunciou se estará presente, mas Rússia, Japão, Estados Unidos e Suíça recusaram a proposta.

Os americanos dizem que enviar observadores equivale a legitimar uma violação à resolução do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), que proíbe o país de realizar lançamentos de foguetes que usem tecnologia de mísseis balísticos - os dois primeiros estágios do Unha-3 têm origem no míssil Taepodong-2, testado em 2006.

"Não recebemos resposta de nenhum dos países convidados para assistir ao lançamento", disse ontem o vice-diretor do Comitê de Tecnologia Espacial da Coreia do Norte, Ryu Kum-chol, em uma rara entrevista coletiva para a imprensa estrangeira.

A divulgação da possibilidade de um novo teste nuclear torna ainda mais delicada a situação da China em relação ao lançamento do satélite. Em artigo publicado na edição em chinês do jornal Global Times, o professor do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos da Escola do Partido Comunista da China, Zhang Liangui, disse que Pequim enfrenta um "dilema" com relação ao convite norte-coreano.

"O eventual sim levará a comunidade internacional a acreditar que a China está ao lado dessa minoria de países suspeitos de provocar a proliferação nuclear", observou. "Se recusar, corre o risco de deixar os norte-coreanos insatisfeitos."

Ryu afirmou que Pyongyang não reconhece resoluções do Conselho de Segurança que violem sua soberania. Segundo ele, ao lançar o satélite, a Coreia do Norte está exercendo seu direito à exploração pacífica do espaço prevista no Tratado Espacial.

As suspeitas da comunidade internacional de que o lançamento do satélite é, na verdade, um teste com míssil balístico foram contestadas por Ryu. "Nenhum país do mundo lançaria um míssil de um espaço tão aberto como a nossa estação de lançamento", afirmou.

O funcionário norte-coreano se recusou a confirmar ou refutar a suspeita de que a Coreia do Norte estaria preparando seu terceiro teste nuclear - os dois primeiros foram realizados em 2006 e 2009. "Em relação a testes nucleares no futuro, não sou responsável sobre essa área e não posso dar uma resposta", declarou.

Os dois testes foram precedidos pelo disparo de foguetes apresentados pelos norte-coreanos como um veículo de lançamento de um satélite. De acordo com um documento do serviço de inteligência da Coreia do Sul, ao qual a imprensa internacional teve acesso, imagens de satélite mostram atividades no centro de testes nucleares de Pung Gye-ri semelhantes às registradas na preparação das detonações de 2006 e 2009.

Ryu recusou-se a dizer quanto o empobrecido país gastou no projeto de lançamento do satélite. A Coreia do Norte é vítima de fome crônica e depende de doações internacionais para evitar que milhões de seus cidadãos morram de inanição.

Acordo. Uma estimativa divulgada pela imprensa sul-coreana, citando fontes de inteligência do governo, coloca o custo do lançamento em US$ 850 milhões, o suficiente para alimentar 19 milhões de pessoas durante um ano - a população da Coreia do Norte é de 24 milhões.

A decisão de Pyongyang de levar adiante o plano de lançamento do satélite levou os Estados Unidos a cancelarem a doação de 240 mil toneladas de alimentos em troca da suspensão do programa nuclear e de testes com mísseis.

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