Yuri Gripas/REUTERS
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China se preocupa mais com campanha eleitoral americana do que com resultado final, diz analista

Para o escritor chinês e professor de história e política internacional Lanxin Xiang, ações da equipe de Trump para pressionar o país asiático em aceno aos eleitores pode resultar até em conflito armado

Renato Vasconcelos, O Estado de S.Paulo

01 de outubro de 2020 | 15h00

O resultado das eleições americanas é menos preocupante para a escalada de tensões entre China e Estados Unidos do que a campanha eleitoral em si. Essa é a análise do professor de história e política externa e escritor chinês Lanxin Xiang, que avalia que determinadas tomadas de decisão da equipe do presidente Donald Trump podem dar início inclusive a um confronto armado entre os países.

Professor no Instituto de Estudos Internacionais e de Desenvolvimento (IHEID), em Genebra, e diretor do Centre of One Belt, One Road Studies, Xiang participou nesta quinta-feira, 1º, de um seminário virtual promovido pela Fundação FHC com o tema "Estados Unidos e China: rumo a uma nova Guerra Fria?". Também participaram do debate o ex-embaixador do Brasil em Pequim, Luiz Augusto de Castro Neves, e o historiador Sérgio Fausto.

De acordo com Xiang, a maior preocupação dele no momento é a passagem de uma "guerra fria" para uma "guerra quente", que poderia ser motivada por diversos fatores. Ações temerárias da equipe Trump para pressionar a China afim de acenar para o público interno no processo eleitoral, como promover exercícios militares no Mar do Sul da China ou enviar o secretário de Estado americano, Mike Pompeo, a Taiwan, poderiam dar início até mesmo a um conflito.

"Não estou pessimista com o resultado da eleição, estou preocupado com as provocações que podem vir no próximo mês", afirmou Xiang. E completou: "Acho muito pouco provável que a China não faça nada no caso de uma viagem de Pompeo a Taiwan".

A preocupação existe entre autoridades militares chinesas, explicou Xiang, apesar de ressaltar que a represália provavelmente seria limitada e não envolveria "matar o secretário de Estado americano". No entanto, mesmo uma reação contida, na visão do professor, poderia resultar em um aumento de hostilidades, com a evolução para um conflito armado aberto.

Para o ex-embaixador brasileiro em Pequim Luiz Augusto Castro Neves, algumas questões asiáticas poderiam elevar as tensões entre os países. Interferências americanas na península da Coreia, em Taiwan ou em Hong Kong e no mar do sul da China são possíveis pontos de ruptura. "Se a Ásia conseguir resolver suas questões de política regional por si só, reduz qualquer possibilidade de conflito", disse Neves, que ainda pontuou que ambos os países teriam mais a perder do que ganhar com esse tipo de desfecho, especialmente em razão da integração econômica de seus mercados.

Novo presidente

O resultado das eleições, contudo, não deve ser decisivo para a relação entre as duas potências, na análise de Xiang. Uma vitória de Biden, diz o professor, não alteraria os interesses americanos, mas abriria uma nova abordagem nas negociações pelo caráter mais pragmático do democrata. No entanto, mesmo uma vitória de Trump não significaria necessariamente uma continuidade ou intensificação das hostilidades. Para ele, a equipe do republicano tem um papel maior nas relações truncadas entre os países do que o próprio presidente.

"A equipe de Trump é formada por verdadeiros soldados da Guerra Fria. Mas se ele vencer a eleição, ele pode até mudar totalmente a relação com a China, aproximar-se de Xi Jinping e dizer que são amigos. Trump não está interessado em ideologias", explica.

O principal alvo de críticas do professor é Pompeo, a quem comparou até mesmo com o ministro da propaganda nazista, Joseph Goebbels. "Pompeo está agindo como um agente de propaganda. Ele não tem nada de um chefe de diplomacia", disse. E completou: "O objetivo de Pompeo e seu grupo é mudança de sistema (na China). Nada menos".

Brasil

Sobre a imagem do Brasil na China, Xiang afirmou que o País é bem visto, tanto nas camadas mais populares - citando até o futebol como uma referência - quanto na cúpula política. De acordo com o professor, a eleição de Jair Bolsonaro chegou a causar alguma dúvida entre as autoridades chinesas, pelo discurso adotado durante a campanha. No entanto, com o início do governo, a preocupação não se confirmou. "Bolsonaro acabou não sendo tão dogmático sobre a China quanto parecia durante a campanha", disse.

Contudo, a recente passagem de Pompeo por Roraima, segundo Xiang, irritou o staff político chinês. "A visita de Pompeo ao Brasil irritou a diplomacia chinesa, mais do que você pode imaginar."

O seminário ainda tratou de outros temas relacionados à política externa chinesa, como Hong Kong e Taiwan. Confira o debate completo (em inglês) abaixo:

 

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