China tenta minimizar reação internacional sobre o Tibete

O Governo tenta evitar que a situação no Tibete gere um boicote aos Jogos Olímpicos de Pequim

EFE

29 de março de 2008 | 06h24

O Governo chinês tenta evitar que a situação no Tibete gere um boicote aos Jogos Olímpicos de Pequim, e aumenta seus esforços com ligações telefônicas para líderes estrangeiros e convites neste fim de semana para diplomatas visitarem os locais da região "fechados" ao exterior. Além disso, a agência oficial "Xinhua" anunciou que as famílias de 18 vítimas fatais da onda de violência em Lhasa receberão uma compensação de 20.000 euros, cada uma. O dinheiro, segundo a "Xinhua", deverá ser destinado a reparar casas ou negócios danificados durante os violentos protestos, e as pessoas feridas podem reivindicar ajuda para pagar por seus tratamentos médicos. Também haverá créditos sem juros ou subsídios para retomar a atividade dos negócios danificados, disse o diretor da administração regional para indústria e comércio do Tibete, Duan Xiangzheng. A visita neste fim de semana de 15 diplomatas da União Européia (UE) para ver pessoalmente a destruição causada pela violência que começou em Lhasa no dia 10 de março segue a outra similar de jornalistas estrangeiros. O esforço dos chineses acontece quando vários líderes europeus anunciaram que não estarão presentes na cerimônia de abertura dos Jogos de Pequim, no dia 8 de agosto. O número de governantes descontentes com a repressão em Lhasa e nas províncias vizinhas aumentou com o anúncio do ministro de Assuntos Exteriores alemão, Frank-Walter Steinmeier, que confirmou que ele, a chanceler, Angela Merkel, e o ministro dos Esportes, Wolfgang Schauble, não participarão da abertura dos Jogos. Steinmeier desvinculou a decisão à violência no Tibete, que as autoridades chinesas dizem que foi orquestrada pelo entorno do Dalai Lama. O anúncio surpreendeu nos meios diplomáticos estrangeiros de Pequim, que assistiam até ontem ao pouco envolvimento da Alemanha na crise, já que a China já havia "punido economicamente" o país europeu depois que Merkel recebesse em setembro o Dalai Lama. O primeiro-ministro do Reino Unido, Gordon Brown, disse que assistirá à cerimônia de abertura, e o chefe de Estado francês, Nicolas Sarkozy, presidente da UE durante os Jogos, não descartou essa possibilidade. No entanto, seus colegas da República Tcheca, Vaclav Klaus, e da Estônia, Toomas Hendrik Ilves, assim como o primeiro-ministro da Polônia, Donald Tusk, disseram que não comparecerão. Segundo analistas estrangeiros na China, o esforço diplomático do gigante asiático se concentra em países cujo boicote seria grave em função dos fortes vínculos econômicos, como os Estados Unidos, o Japão e a Austrália. Em países pequenos ou com uma relação bilateral não tão importante com a China, o dano pode ser contornado, destacaram. O grupo de diplomatas convidados pela China para visitar o Tibete tomou conhecimento da viagem apenas algumas horas antes. A "Xinhua" anunciou que os diplomatas poderão visitar locais destruídos pela violência e falar com vítimas dos piores protestos tibetanos anti-China dos últimos 20 anos. Segundo fontes ocidentais, o Governo chinês tenta provar que atuou com prudência no que considera um assunto totalmente interno. "A destruição foi maior do que eu tinha imaginado", afirmou opresidente da Região Autônoma do Tibete, Qiangba Puncog, que assistia em Pequim à sessão anual da Assembléia Nacional Popular (ANP) quando ocorreram os incidentes mais violentos. Pequim reconheceu que em Lhasa morreram 18 civis e dois policiais, e que 382 civis e 241 agentes ficaram feridos. O exílio tibetano na Índia afirma que entre 135 e 140 pessoas morreram e que cerca de mil ficaram feridas. Em meio à campanha lançada por Pequim, o Dalai Lama, líder espiritual dos tibetanos, acusou ontem os meios de comunicação chineses (todos oficiais) de utilizar imagens distorcidas em suas informações sobre a violência em Lhasa. Essas ações, disse, "podem plantar sementes de tensão racial com imprevisíveis conseqüências a longo prazo". Os protestos iniciados em Lhasa em 10 de março e que se estenderam no dia 14 às províncias vizinhas de Sichuan, Gansu e Qinhai lembravam o levante de 1959 contra Pequim, reprimido quando era secretário regional do Partido Comunista da China (PCCh) o atual líder máximo e presidente do gigante asiático, Hu Jintao.

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