China torna-se importador líquido de alimentos no 1o semestre

Na primeira metade deste ano, emtermos de valores monetários, a China importou mais alimentosdo que exportou, uma vez que a disparada do preço dos alimentosreverteu seu tradicional superávit na área de produtosagrícolas. A mudança para a condição deficitária reflete o aumento nopreço de commodities como os grãos, entre os quais a soja. Mas também coloca sob uma luz interessante a postura daChina nas negociações malsucedidas do mês passado sobre ocomércio global. Naquele processo, o governo chinês, cada vez maispreocupado com garantir seu fornecimento de comida, ficou aolado da Índia e contra os EUA ao defender a aprovação de ummecanismo de defesa para proteger os agricultores de países emdesenvolvimento ameaçados pela eventual invasão de produtosimportados. Segundo a Global Trade Global Trade Information ServicesInc (GTIS), a China registrou um déficit de 5,78 bilhões dedólares na balança dos produtos agrícolas, na primeira metadedeste ano, contra um superávit de 2,45 bilhões de dólares umano antes. O valor dos produtos importados elevou-se 72 porcento, ao passo que o dos exportados subiu apenas 12 por cento. A GTIS fornece e analisa dados sobre o comérciointernacional. As informações dizem respeito ao desempenho do mercado nascategorias de 1 a 24 do sistema harmonizado (HS), usadointernacionalmente para classificar os produtos. Essascategorias incluem derivados de animais, derivados de vegetaise alimentos, entre os quais ração para bichos e comida parapessoas. Naquele período, as importações dos EUA, maior fornecedorde produtos agrícolas da China, quase dobraram de tamanho. Asvindas do Brasil elevaram-se 95 por cento e as da Argentina,132 por cento -- esses são os dois próximos maioresfornecedores dos chineses. Mas as exportações para o Japão, maior consumidor dosalimentos vindos da China, diminuíram 12 por cento. Masaumentaram 13 por cento as exportações para os EUA. Dados da Organização Mundial do Comércio (OMC), quemensuram o comércio de alimentos utilizando uma metodologia umpouco diferente, mostram que a China registrou um superávit nabalança comercial de produtos agrícolas de 2000 a 2007. A únicaexceção deu-se em 2004, quando o país asiático verificou umpequeno déficit, de 0,2 bilhão de dólares. O superávit dos chineses nessa área atingiu o pico de 6,4bilhões de dólares em 2004, mas ficou em apenas 0,9 bilhão em2008, ano em que o preço dos alimentos começou a subir. O tamanho em si do comércio de alimentos na Chinatransformou o país, em 2006, quando ainda tinha um superávit de5 bilhões de dólares, no quarto maior exportador desse tipo deproduto no mundo, atrás apenas da União Européia (UE), dos EUAe do Brasil, e no quarto maior importador, atrás da UE, dos EUAe do Japão, mostraram dados da OMC. Desde então, a China sofreu uma deterioração clássica nosetor comercial, e o preço dos alimentos importados elevou-semuito mais rapidamente do que o preço dos exportados. Em termos de valor, os principais produtos agrícolasimportados pela China são grãos e cereais, soja e óleoscomestíveis. Já seus principais produtos de exportação incluempeixe e derivados de peixe, vegetais, grãos como o arroz, alémde frutas e sucos de fruta. O valor da soja importada nos primeiros sete meses desteano elevou-se 118,6 por cento, atingindo 12,3 bilhões dedólares. Mas em termos de volume, a elevação foi de apenas 22,8por cento (para 20,7 milhões de toneladas), mostraram dadosoficiais da China. O valor do peixe exportado aumentou apenas 9,5 por cento,para 2,88 bilhões de dólares, mas caiu 4 por cento em termos devolume (para 1 milhão de toneladas), revelaram aqueles dados. Os gastos crescentes com os alimentos colocaram pressãosobre o governo chinês para adotar uma atitude protecionista nocomércio de produtos agrícolas. E isso apesar de o país ter sebeneficiado do sistema de livre comércio instalado pela OMC,entidade na qual a China ingressou em 2001. O país asiático é hoje o segundo maior exportador mundial,ficando atrás apenas da Alemanha.

JONATHAN LYNN, REUTERS

21 de agosto de 2008 | 15h52

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