China Daily via REUTERS
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China usa influenciadores digitais estrangeiros do YouTube para fazer propaganda

Objetivo do governo chinês é contra-atacar críticos das políticas sociais e mudar opinião mundial sobre o gigante asiático

Paul Mozur, Raymond Zhong, Aaron Krolik, Aliza Aufrichtig e Nailah Morgan, The New York Times, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2021 | 05h00

NOVA YORK - Milhões de pessoas assistiram aos vídeos de Lee e Oli Barrett no YouTube da China. O pai e o filho visitam hotéis em locais exóticos, fazem um tour por aldeias remotas, provam iguarias em mercados movimentados e experimentam limpar os ouvidos do modo tradicional.

"Estamos hoje nos arredores de Xangai, no hotel mais incrível em que já nos hospedamos", diz Oli em um vídeo, pouco antes de o drone que os filma revelar um complexo de luxo dentro de uma enorme pedreira.

Os Barretts fazem parte de uma safra de novas personalidades da mídia social que pintam retratos alegres da vida como estrangeiros na China - e também contra-atacam as críticas ao governo autoritário de Pequim, à sua política a respeito de minorias étnicas e ao combate ao coronavírus.

Os vídeos têm um toque casual e caseiro. Mas, do outro lado da câmera, muitas vezes está um grande aparato de organizadores do governo, mídia de notícias controlada pelo Estado e outros amplificadores oficiais - tudo parte das amplas tentativas do governo chinês de espalhar mensagens pró-Pequim em todo o planeta.

Tráfego

Segundo documentos do governo e os próprios criadores, veículos de notícias estatais e governos locais organizaram e financiaram viagens de influenciadores pró-Pequim. Eles pagaram ou se ofereceram para pagar pelo serviço dos criadores, e geraram para estes um tráfego lucrativo, compartilhando seus vídeos com milhões de pessoas nas redes sociais.

Com o apoio da mídia oficial, os criadores podem visitar e filmar em partes da China onde as autoridades proíbem o trabalho de jornalistas estrangeiros.

A maioria dos youtubers mora na China há anos e afirma que seu objetivo é contrariar as percepções cada vez mais negativas do Ocidente sobre o país. Eles dizem que quem decide o que vão mostrar em seus vídeos são eles mesmos, não o Partido Comunista.

Mas mesmo que os criadores não se vejam como ferramentas de propaganda, Pequim está usando-os dessa forma. Diplomatas e representantes chineses mostram seus vídeos em entrevistas coletivas e promovem suas criações nas redes sociais. Juntos, seis dos influenciadores mais populares obtiveram mais de 130 milhões de visualizações no YouTube e mais de 1,1 milhão de assinantes.

Caos e suspeita

Essas simpáticas vozes estrangeiras fazem parte dos esforços cada vez mais ambiciosos de Pequim para moldar o debate mundial sobre a China. O Partido Comunista convocou diplomatas e agências de notícias estatais para divulgar suas narrativas e abafar as críticas.

Na verdade, Pequim está usando plataformas como Twitter e YouTube, que o governo bloqueia dentro da China para evitar a disseminação descontrolada de informações, como megafones de propaganda para o mundo em geral.

"A China é o novo superusuário que chegou às redes sociais globais", disse Eric Liu, ex-moderador de conteúdo da mídia social chinesa. "O objetivo não é vencer, mas causar caos e suspeita até que não haja uma verdade real."

Sem política

Raz Gal-Or começou a fazer vídeos engraçados quando era um estudante universitário em Pequim. Agora, o jovem israelense leva a seus milhões de assinantes entrevistas com pessoas comuns e outros expatriados sobre sua vida na China. Em um vídeo deste ano, Gal-Or visita campos de algodão em Xinjiang para conter as acusações de trabalho forçado.

"É totalmente normal aqui", declara ele depois de saborear kebabs com alguns trabalhadores. "As pessoas são legais, fazem seu trabalho, vivem suas vidas."

Seus vídeos não mencionam documentos internos do governo ou depoimentos em primeira mão e visitas de jornalistas que indicam que as autoridades mantiveram centenas de milhares de muçulmanos de Xinjiang em campos de reeducação.

Os vídeos do israelense também omitem os laços comerciais dele e de sua família com o Estado chinês. O presidente da empresa de vídeo de Gal-Or, YChina, é seu pai, Amir, um investidor cujo fundo é apoiado pelo Banco de Desenvolvimento da China, administrado pelo governo, diz o site do fundo.

Em e-mails para o The New York Times, Raz Gal-Or diz que YChina não tinha "contratos comerciais" com agências de notícias estatais. Ele afirma que nenhuma entidade oficial o pagou ou orientou em Xinjiang.

Raz Gal-Or diz que sua série de vídeos em Xinjiang é sobre "a vida das pessoas, o bem-estar e os sonhos". "Quem o vê como político tem sua própria agenda", acrescentou.

Sem opressão

Outros criadores reconhecem que aceitaram apoio financeiro de entidades estatais, embora digam que isso não os torna porta-vozes de Pequim.

Kirk Apesland, um canadense que mora na China, chama seu canal de Gweilo 60 ("Gweilo" é uma gíria cantonesa para estrangeiro). Ele rejeita notícias de repressão em Xinjiang e cita suas próprias experiências felizes para contestar a ideia de que o povo chinês é oprimido.

Depois que o The New York Times contatou Apesland, ele postou um vídeo intitulado "New York Times vs Gweilo 60". Nele, o canadense reconhece que aceita estadias gratuitas em hotéis e pagamentos das autoridades municipais e provinciais. E compara isso a ser um vendedor de turismo local. "Há remuneração para o que eu faço? Claro. Estou fazendo um trabalho. Estou divulgando os vídeos para centenas de milhares de pessoas."

De acordo com um documento apresentado em um novo relatório do Instituto Australiano de Política Estratégica, o regulador da internet da China pagou cerca de US$ 30 mil (cerca de R$ 170 mil) a uma empresa de mídia como parte de uma campanha chamada "Um encontro com a China", que usou "celebridades estrangeiras da internet" para promover o sucesso do governo na redução da pobreza.

Não está claro quanto os criadores podem estar ganhando com esse trabalho. Mas, além do dinheiro, as entidades governamentais chinesas também forneceram algo que pode ser igualmente valioso para uma personalidade da mídia social: o tráfego digital. O YouTube usa a receita de publicidade para pagar influenciadores com base em quantas pessoas estão assistindo. Esses olhos também podem ajudar os influenciadores a conseguir acordos de patrocínio com grandes marcas, como fizeram vários YouTubers pró-China.

Gal-Or postou seu vídeo sobre as fazendas de algodão de Xinjiang no YouTube em 8 de abril, logo após Nike, H&M e outras marcas serem criticadas na China por questões trabalhistas. Em poucos dias, seu vídeo foi republicado com legendas em italiano pela página do Facebook da Embaixada da China na Itália, que tem quase 180 mil seguidores. Nas semanas seguintes, o vídeo, junto com outros clipes de Gal-Or em Xinjiang, foram compartilhados no Facebook e no Twitter por pelo menos 35 contas administradas por embaixadas chinesas e veículos de notícias oficiais. No total, as contas têm cerca de 400 milhões de seguidores./ The New York Times

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