China vai à África e muda o continente

Pequim compra petróleo, leva investimentos e ganha mercados

Mariana Della Barba, LUANDA, O Estadao de S.Paulo

17 de dezembro de 2007 | 00h00

Há seis séculos, as potências européias deram início à colonização do continente africano. Agora, chegou a vez de a China, a potência emergente do século 21, redescobrir a África e tirá-la do esquecimento político e econômico a que estava relegada desde o fim da Guerra Fria. Com uma estratégia agressiva de relações diplomáticas baseadas em parcerias comerciais, a China encontrou nos países africanos tudo o que precisa para sustentar sua média anual de crescimento econômico de 11,5%: matéria-prima em abundância, indústria local fraca e um mercado inexplorado para os produtos chineses. O comércio bilateral deverá fechar o ano na casa dos US$ 70 bilhões, aumento de 30% em relação ao ano anterior.Com 800 empresas espalhadas por 49 dos 53 países do continente, os chineses começam a fazer parte da paisagem de muitas cidades africanas. Estima-se que já são mais de 750 mil deles vivendo na África. Em Luanda, os canteiros de obras estão apinhados de operários chineses. Na construção de um hotel no centro da capital, chineses e angolanos comunicam-se por mímica. "Estou aqui há mais de um ano e adoro. Pretendo até trazer minha família", disse ao Estado Yang Lee, arquiteto da obra. Seu patrão, um militar angolano da reserva que não quis se identificar, elogia os chineses. "Eles são eficientes e muito caprichosos, olhe só esse acabamento", diz, apontando para uma parede de azulejos. Para o deputado João Melo, do partido governista MPLA, a parceria com os chineses chegou na hora certa. "Eles estão nos ajudando a levantar esse país, que há cinco anos estava no fundo do poço", disse.A grande novidade é que os chineses estão chegando com investimentos pesados em infra-estrutura - e num volume que muitos países africanos não recebem há mais de quatro décadas, quando ainda eram colônias de nações européias. O petróleo é, de longe, o principal fator do envolvimento chinês no continente. Por isso, Angola, Sudão e Nigéria, os maiores produtores da África, são beneficiados. Este ano Angola chegou a ultrapassar a Arábia Saudita como principal fornecedor de petróleo da China. Linhas de crédito abertas por Pequim estão sendo usadas para abrir estradas, construir pontes e recuperar ferrovias destruídas pela guerra civil angolana (1975-2002). O Sudão viu sua economia crescer 11,2% este ano, também graças à China, destino de 64% dos barris extraídos do subsolo sudanês. Na Nigéria, além de fornecer crédito e ajuda técnica para construção de refinarias e hidrelétricas, o governo chinês está investindo no setor de telecomunicações, com o lançamento de um satélite para transmissão de sinal de celulares.A presença chinesa estende-se a outros países. Da África do Sul, a China compra minério de ferro e platina. Do Gabão e Camarões, madeira. Do Congo, cobre e cobalto. Pequim também importa a maior parte da produção de algodão das nações do centro e do oeste africanos.Agressiva, a estratégia chinesa para a África inclui ajuda humanitária e propostas de negócios irrecusáveis - com preços abaixo do mercado e perdão de dívidas -, que levam os críticos a falar em concorrência desleal. "Aqui em Angola, as parcerias fechadas com a China não passam pelo crivo do Parlamento e são marcadas pela falta de transparência", explica o cientista político Nelson Pestana, professor de economia social e direito da Universidade Católica de Angola.Vários países do continente, no entanto, vêem a ofensiva chinesa como saída para captar investimentos. "Antes, os africanos sofriam para conseguir verbas e créditos de instituições como o FMI e o Clube de Paris, pois havia a exigência de metas que eles não conseguiam cumprir", diz o cientista político queniano Firoze Manji. "A China surgiu, então, como uma alternativa viável, que oferece empréstimos a taxas baixíssimas."Pequim alega que não mistura negócios com política e sua linha é de não intervir nas questões internas dos países. Com esse argumento, fecha acordos com líderes acusados de violar os direitos humanos, caso de Omar al-Bashir, presidente do Sudão, onde o genocídio em Darfur já matou mais de 200 mil pessoas. "É hipocrisia acusar a China de negociar com países onde há ditadores. Outras nações fazem muito pior. A China nunca mandou assassinar nenhum líder africano, como a CIA já fez", diz Manji.Uma das facetas mais arriscadas dessa relação sino-africana está, segundo especialistas, no tamanho do apetite chinês por petróleo e minérios, que prejudica a diversificação da economia dos países africanos. Nas duas áreas, a criação de empregos é limitada. Sem uma indústria manufatureira e dependente do instável mercado mundial de commodities, o continente desenvolve-se de modo pouco sustentável.Além disso, os contratos que os chineses assinam normalmente não os obriga a transferir tecnologia. "Em todas as obras daqui só há trabalhadores chineses, incluindo os sem qualificação. Num país com índice de desemprego de 45%, isso é inconcebível", diz Pestana. A reclamação é a mesma em outros países africanos. Em Zâmbia, empreiteiras da China construíram uma ferrovia de 2 mil quilômetros e reformaram um porto. Terminadas as obras, os chineses partiram sem ensinar técnicos locais, que agora não sabem como fazer a manutenção da ferrovia ou do porto. O candidato a presidente Michael Sata prometeu acabar com a parceria bilateral caso vencesse as eleições de setembro. "Os chineses estão aqui simplesmente para tomar o lugar do Ocidente, são os novos colonizadores da África", acusou durante a campanha. Imediatamente, Pequim ameaçou cortar relações diplomáticas com Zâmbia - o que não ocorreu porque Sata acabou derrotado.BALANÇO DA PRESENÇA CHINESA NA ÁFRICAPositivoO governo chinês injetou US$ 11,7 bilhões na África em 2007, impulsionando o crescimento econômico do continenteParte do investimento direto chinês está sendo usado para melhorar a infra-estrutura de vários países, o que não ocorria desde o período colonialA presença chinesa na África estimulou outros países ricos a investir no continente NegativoNão há transparência nos acordos, feitos diretamente com governos, sem prestação de contasOs acordos não prevêem transferência de tecnologia, o que torna os países dependentes da China Preferência de Pequim por petróleo e minérios prejudica diversificação da economia africanaInvasão de produtos chineses cria concorrência desleal

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