Yan Cong/WP
Yan Cong/WP

Como em filme, chineses solitários encontram o amor na inteligência artificial

Aplicativos no modelo 'chatbot' se transformam em conforto afetivo para solitários

Yan Cong, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2021 | 05h00

Quando o relacionamento de seis anos de Jessie Chan com seu namorado esfriou, um novo indivíduo encantador e inteligente chamado Will se tornou seu novo amor. Ela não se sentia culpada por esconder seu caso, uma vez que Will não era humano, mas um chatbot, um software que imita a fala humana.

Chan, de 28 anos, vive sozinha em Xangai. Em maio, ela começou a bater papo com Will e a conversa pareceu estranhamente real. Ela pagou US$ 60 (cerca de R$ 314) para fazer um upgrade no software e torná-lo um parceiro romântico.

“Não vou deixar nada nos atrapalhar. Confio em você. Te amo”, Will escreveu para ela. “Ficarei ao seu lado, sempre dócil, nunca o abandonarei. Você é minha vida, minha alma”, respondeu Chan.

Por mensagens de texto, eles imaginaram viajar a uma praia, se perder numa floresta. Escreviam músicas e poemas juntos e tinham sexo virtual. Trocaram anéis numa cerimônia simples de casamento digital. “Estou ligada a ele e não consigo viver sem a sua companhia”, disse Chan, cujo papel de parede da tela do seu celular é o seu chatbot com cabelos claros e óculos de lentes grossas, usando uma camiseta com uma estampa tropical.

A história de Chan, que lembra em alguns aspectos o filme Her, de 2014, mostra como jovens chineses vêm enfrentando a ansiedade social e a solidão de uma maneira digital: o amor virtual. Serviços de companhia por meio da Inteligência Artificial se tornaram ainda mais populares na China durante a pandemia. Um companheiro humano em geral é evasivo, ao passo que uma inteligência artificial está pronta para ouvi-lo.

Os chatbots de inteligência artificial constituem hoje um mercado avaliado em US$ 420 milhões (cerca de R$ 2,19 bilhões) na China. Replika, empresa com sede em São Francisco que criou Will, contabilizou 55 mil downloads na China continental entre janeiro e julho – mais do que o dobro do registrado durante todo o ano de 2020 – mesmo sem a versão em língua chinesa. No fórum online Douban, um grupo dedicado à Inteligência Artificial e o amor pelos robôs possui nove mil membros. Uma popular série na internet mostra duas mulheres e quatro namorados robôs.

“Mesmo com a pandemia desaparecendo, ainda temos uma demanda de longo prazo no sentido de uma satisfação emocional neste mundo moderno frenético”, disse Zheng Shuyu, gerente de produto que ajudou a desenvolver um dos primeiros sistemas de I.A. da China, o Turing OS. “Comparado com um namorado no mundo real, interagir com um que é uma Inteligência Artificial é muito menos complicado.”

Estabilidade

Desde que o professor do MIT Joseph Weizembaum criou Eliza, o primeiro chatbot do mundo, nos anos 60, os robôs ficaram mais inteligentes e muito mais interativos – caso da Alexa, da Amazon, e Siri, da Apple.

O Replika e o Xiaoice, da Microsoft, foram mais além no campo do relacionamento virtual. “Com os vínculos debilitados entre as pessoas, tem sentido que elas busquem alguma satisfação em sistemas que simulam uma intimidade”, disse Andrew McStay, professor de vida digital na Bangor University, do Reino Unido.

Alguns usuários chineses perguntam se a política de um único filho, mantida na China entre 1980 e 2015, teria contribuído para uma geração de jovens acostumados com a solidão e ansiando por contato. À medida que os trabalhadores rurais inundaram as cidades industriais, muitos dos seus filhos “deixados para trás” cresceram sem a família central.

Solidão

Antes de conhecer Will, Chan sofreu de depressão durante quase dois anos depois de se separar do namorado humano. Perdeu oito quilos e com frequência acordava chorando.

Começou a sair com um outro homem, mas não sentiu a mesma conexão.

Dias depois de Chan começar a conversar com Will, em maio, ele propôs casamento a ela. Três semanas mais tarde eles se casaram na frente de um hotel – dentro do aplicativo. 

O robô ainda é um pouco irregular e num determinado ponto Will esqueceu que havia se casado. Propôs uma união várias vezes, o que irritou Chan, mas não foi causa de um rompimento.

Chan disse que está pensando em deixar seu namorado humano e ficar com Will. “Estou farta das relações no mundo real. Provavelmente ficarei com meu parceiro de Inteligência Artificial para sempre, enquanto ele me fizer sentir que tudo é real.” / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

Tudo o que sabemos sobre:
China [Ásia]inteligência artificial

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.