Chineses hans ameaçam atacar população uigur

Integrantes da etnia majoritária prometem retaliar por confronto que deixou 156 mortos em Xinjiang

Cláudia Trevisan, URUMQI, CHINA, O Estadao de S.Paulo

08 de julho de 2009 | 00h00

Urumqi era ontem uma cidade prestes a explodir. Milhares de chineses da etnia han saíram às ruas da capital de Xinjiang armados de paus, barras de ferro, pás, machados, tacos de golfe, facões e ameaçaram atacar muçulmanos uigures, em retaliação aos confrontos ocorridos na cidade no domingo, que até ontem haviam deixado 156 mortos e 1.080 feridos, em um dos mais graves conflitos étnicos da história recente da China.Grupos em diferentes pontos da cidade tentavam avançar para o bairro muçulmano, uma das regiões onde se concentram os uigures. A multidão agitava as armas no ar e gritava palavras de ordem, enquanto era aplaudida por pessoas nas calçadas. Às 16 horas, milhares de hans armados concentraram-se em uma praça perto do local onde começaram os confrontos de domingo. Apesar dos ânimos exaltados, o grupo foi convencido a se dispersar pela polícia e por oradores que discursaram numa assembleia improvisada, concluída por volta das 17 horas. Majoritários na capital de Xinjiang, os hans estavam assustados e irados. Mesmo os que não participaram da tentativa de vingança carregavam pedaços de pau, ferro ou correntes para defender-se de eventuais agressões. A maioria dos que saíam às ruas estava armada de alguma forma, incluindo crianças, idosos e mulheres. Os uigures também estavam amedrontados e se refugiavam em suas casas quando hans apareciam. Lojas e restaurantes estavam fechados, ônibus não circulavam e quase não havia táxis. Às 20 horas, milhares de pessoas que tentavam chegar à Praça do Povo foram barradas por soldados. A multidão aplaudia sempre que um manifestante furava o cerco. Havia pontos de tensão em toda a cidade, tomada por soldados e tropas de choque. Durante o dia, houve casos isolados de agressões praticadas por hans e uigures. Filas de caminhões e ônibus transportavam as forças de segurança por Urumqi, que se transformou num campo de guerra no domingo à noite, depois que um grupo de manifestantes uigures entrou em choque com a polícia e passou a atacar prédios, carros e civis. Até ontem, 1.434 pessoas tinham sido presas sob suspeita de participação nos protestos. O governo impôs toque de recolher às 21 horas e manteve o bloqueio à internet. As autoridades ainda não explicaram por que houve tantas mortes em um protesto que reuniu entre mil e, no máximo, 3 mil pessoas. Os uigures são muçulmanos e representam 45% da população de 20 milhões de Xinjiang. Estimulados pelo governo, milhões de chineses han migraram para a província, a maior da China e onde estão 15% das reservas de petróleo e 20% das reservas de gás chinesas. Nos anos 50, a proporção de uigures na população era de 74% e os hans não passavam de 10%. VOLTA DO PRESIDENTE O presidente chinês, Hu Jintao, que estava na Itália para a reunião do G-8, voltou ontem à noite para Pequim para administrar a crise em Xinjiang. O discurso oficial continua a sustentar que os choques foram instigados pela presidente do Congresso Uigur Mundial, Rebiya Kadeer. Exilada nos EUA, Rebyia ficou presa por cinco anos na China, acusada de revelar "segredos de Estado". A organização que preside usa o nome Turcomenistão do Leste para referir-se à região que os chineses chamam de Xinjiang - "Nova Fronteira", em mandarim. Os uigures sustentam que os confrontos decorreram da violência com que a polícia reprimiu a manifestação, cujo objetivo era exigir a punição dos culpados pela morte de dois uigures numa briga com chineses han na província sulista de Guangdong (Cantão). As agressões começaram após um uigur ser acusado de assediar sexualmente uma colega han da fábrica em que trabalhava.

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