Chineses se lançam ao consumo no feriadão de sete dias

A China viveu nesta semana um dos feriados prolongados mais movimentados de todos os tempos. Cerca de 90 milhões de chineses se entregaram aos prazeres do turismo, do lazer e do consumo. O feriadão de sete dias em comemoração ao Dia Internacional do Trabalho acabou só na sexta-feira e poucos se mostram preocupados com a adoção de possíveis medidas para desaceleração da economia chinesa durante a próxima semana.O clima de euforia tomou conta dos principais pontos turísticos de Pequim. Passo a passo, um grupo de turistas de Fuxian, situada na Província do Shaanxi, no Oeste chinês, ia descobrindo os encantos e a magnitude da Praça da Paz Celestial na manhã da sexta-feira. " É a primeira vez que visito Pequim, a Capital de meu País. Estou muito emocionado, pois nunca vi tanta gente concentrada num só lugar", afirmou Qiu Jingmo, um secundarista de 16 anos que integrava o grupo. Nem a fila de espera numa das franquias do Mac Donald´s nas imediações da Praça tirou o bom humor do grupo. O tempo de espera era estimado em 20 minutos, mas sintetizava o a superlotação diurna e noturna dos restaurantes, pizzarias e bares desta Capital. Numa das áreas nobres da cidade, uma churrascaria que se anuncia "tipicamente brasileira", atendeu diariamente a cerca de 700 clientes. Os preços cobrados - 48 yuans (US$ 5,28) para os homens e 38 yuans (US$ 4,26) para as mulheres - são razoáveis para os padrões urbanos chineses. O movimento da semana, no entanto, esgotou os funcionários. "Quero apenas que o dia acabe", confessava um garçom. Feriadões são para incentivar setor de serviços Os três feriadões de uma semana - Ano Novo Lunar, Primeiro de Maio e Primeiro de Outubro - foram criados há alguns anos pelo governo para aumentar a folga anual dos trabalhadores e ativar o setor de serviços do País. Anualmente, eles movimentam até 1% do Produto Interno Bruto (PIB), cerca de US$ 12 bilhões, e geram milhares de empregos fixos e temporários em hotéis, restaurantes e agências de turismo. Durante este período, os trabalhadores migrantes retornam às suas localidades de origem e provocam a superlotação de trens, ônibus e de barcos, pois o sistema de transportes chinês é obrigado a assimilar uma média de 1,2 milhão de deslocamentos por todo o território nacional. Os interesses econômicos envolvidos e os níveis de segurança necessários fizeram com que o governo chinês também criasse o Escritório dos Feriados, um órgão especialmente voltado à organização, controle e coleta de seus dados estatísticos. Segurança redobrada A capital, Pequim, tanto por suas atrações turísticas quanto pelo seu significado político e estratégico, teve suas medidas de segurança redobradas. Escaldados com a má repercussão do acidente que vitimou cerca de 11 pessoas em fevereiro deste ano durante a Festa das Lanternas (que assinala o final do Ano Novo Lunar Chinês) num parque nos arredores da cidade, as autoridades decidiram limitar o número de visitantes em locais públicos ou privados em todo o País. Até Badaling, principal ponto turístico deste trecho da Grande Muralha, teve que acatar as medidas e adotar novas normas de segurança. As normas de segurança também visavam possíveis casos suspeitos da Síndrome Respiratória Aguda Asiática (Sars). As estações ferroviárias, rodoviárias e aeroportos chineses instalaram equipamentos eletrônicos para medir as temperaturas dos turistas e viajantes. A epidemia de Sars do ano passado provocou o cancelamento do feriadão do Primeiro de Maio, dando início ao histórico prejuízo de US$ 53 bilhões registrado pela indústria turística chinesa no primeiro semestre de 2003. Depois do feriadão, a ressaca Mas o feriadão acabou e com ele a expectativa sobre a adoção ou não de novas medidas para desacelerar o impetuoso ritmo do crescimento chinês. Indagado sobre a possibilidade de ter que enfrentar uma ressaca econômica na próxima segunda feira, a professora Ren Fuxia foi direta na resposta. " Podemos diminuir as taxas de crescimento, mas sabemos e acreditamos que podemos nos desenvolver ainda mais. Se houver qualquer medida, será passageira. Não estou preocupada com isto", afirmou. A opinião parece generalizada. Após meses de estiagem, os meteorologistas previram uma garoa para o último final de semana. No entanto, o que se viu foi uma chuva constante e mesmo torrencial em alguns momentos. Na segunda feira, a imprensa chinesa explicou o fenômeno. O governo chinês, sabendo das previsões, ordenou o bombardeamento químico das nuvens e provocou o aumento das chuvas. O fato ganhou espaço na mídia chinesa, sendo amplamente divulgado pelas emissoras de TV e rádio, bem como pelos jornais da Capital. Uma grande oportunidade para uma bem humorada brincadeira dos colegas de imprensa e intérpretes chineses quando perguntados sobre a possível contenção das suas atividades econômicas do País: ?Aqui, o governo, quando quer, faz até chover!?Resta, então, acreditar nos chineses. E torcer muito para que o governo chinês não provoque uma tempestade que assole o mercado nas próximas semanas, a fim de desacelerar sua economia.

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