Chirac continua insistindo em desarmamento pacífico

O fato de a França estar sendo responsabilizada diretamente pelo presidente George W. Bush pelo malogro das negociações diplomáticas não altera em nada a posição francesa sobre o Iraque. O presidente Jacques Chirac reafirmou que continua disposto a lutar até o fim por um desarmamento pacífico. Hoje, depois de manter contatos telefônicos com os dirigentes dos demais países da chamada "frente de rejeição" - Rússia, China, Alemanha e França -, o chefe de Estado francês advertiu Bush e seus aliados que "o Iraque não representa hoje uma ameaça imediata a ponto de justificar uma guerra imediata". A única possibilidade para a França mudar de posição será a utilização, por Saddam Hussein, de armas químicas e bacteriológicas.Chirac está lançando um apelo "à responsabilidade de cada um para a que a legalidade internacional seja respeitada", talvez uma das suas últimas iniciativas antes de as operações militares começarem. Para Chirac, "subtrair-se à legitimidade das Nações Unidas, privilegiar a força acima do direito, seria assumir uma difícil responsabilidade". Na reunião prevista para amanhã do Conselho de Segurança, em Nova York, os quatro países se coordenaram para que sejam representados por seus quatro ministros do Exterior. Os ministros dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha, Colin Powell e Jack Straw, já anunciaram sua ausência, pois, para eles, a fase da diplomacia pertence ao passado.Essa advertência não está sendo dirigida apenas a George W. Bush, mas também ao primeiro-ministro Tony Blair, outro grande crítico de Chirac, mas que viveu nas últimas horas uma verdadeira tempestade no interior de seu partido e do próprio governo, após a demissão de três de seus ministros, que não concordam que o país possa partir para a guerra sem o aval das Nações Unidas. Chirac e seus parceiros continuam lutando pela preservação da unidade do Conselho de Segurança, dentro do contexto estabelecido pela resolução 1441.Durante a tarde, na Assembléia Nacional, também o primeiro-ministro Jean Pierre Raffarin manifestou-se na mesma linha, revelando, ao contrário do que tem ocorrido no Parlamento britânico, a existência de amplo consenso junto à classe política francesa, pois só divergem da linha chiraquiana muito poucas vozes, uma dezena de deputados liberais.Raffarin disse também que a França vai continuar tornando públicas suas posições e defendendo seus princípios.Diante dos ataques da dupla Bush e Blair, o presidente Chirac decidiu esclarecer os motivos que levaram a França a assumir a posição atual, lembrando que seu país agiu em nome da primazia do direito e em virtude da concepção das relações entre os povos e as nações, só admitindo a alternativa da força como "o último recurso, quando todas as outras opções tiverem se esgotado". Por enquanto, as inspeções deveriam prosseguir, pois os resultados têm sido positivos. Segundo Chirac, seja qual for a evolução dos acontecimentos, "esse ultimato coloca em questão a idéia que temos das relações internacionais, compromete o futuro de um povo, de uma região e a própria estabilidade do mundo". Finalmente, tal decisão "compromete o futuro dos métodos de resolução pacífica das crises ligadas à proliferação de armas de destruição em massa".

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