Chirac e Schroeder formam frente contra a guerra

Na celebração dos 40 anos do Tratado de Amizade franco-germânico, o presidente da França, Jacques Chirac e o chanceler da Alemanha, Gerhard Schroeder, declararam hoje, em Paris, que seu países terão na questão iraquiana "uma só voz", claramente contrária ao lançamento de uma guerra contra o Iraque sem o aval do Conselho de Segurança (CS) da ONU. As duas nações são membros do CS, tendo os franceses direito a vetar resoluções.O firme posicionamento de Chirac e Schroeder - que defenderam também a prorrogação do prazo para as inspeções da ONU ? ocorreu um dia depois de o presidente americano, George W. Bush, ter reiterado que os EUA poderão desfechar o ataque mesmo sem a aprovação do conselho, se considerarem que o Iraque não está cumprindo com sua obrigação de desarmamento. O primeiro-ministro britânico, Tony Blair, tem expressado apoio à posição de Bush.A forte divisão entre as quatro potências da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) levou essa organização a adiarhoje a decisão sobre o planejamento de medidas de apoio a umeventual ataque ao Iraque - solicitadas pelo governo americanona semana passada. Segundo diplomatas em Bruxelas, sede da Otan, França e Alemanha bloquearam a discussão numa reunião pela manhã antes ainda do encontro de Chirac e Schroeder. Os dois líderes participaram à tarde de sessão conjunta da Assembléia Nacional francesa e a Assembléia Federal alemã (Bundestag) no Palácio de Versalhes."Alemanha e França têm o mesmo critério sobre a crise iraquiana", disse Chirac em uma entrevista à imprensa ao ladode Schroeder, depois da sessão ministerial. Tal critério, explicou Chirac, baseia-se em duas idéias: "A primeira é que toda decisão corresponde exclusivamente ao Conselho de Segurança que deve expressar-se depois de escutar o informe dos inspetores do desarmamento do Iraque (na segunda-feira). A segunda é que para nós a guerra sempre significa um fracasso. Devemos fazer todo o possível para evitar a guerra."Logo depois, o presidente francês perguntou a Schroeder se tinha algo a acrescentar ao que dissera, ao que este apenas respondeu: "Não." A posição de Schroeder, na verdade, parece sutilmente diferente da francesa, uma vez que na terça-feira à noite, durante um comício em uma eleição regional na Alemanha, ele frisou que o país, em hipótese alguma, entraria numa guerra. "Não esperem que a Alemanha concorde com uma resolução que legitime a guerra. Não contem com isso." Schroeder foi reeleito em setembro após uma campanha eleitoral em que prometeu nãotomar parte em um ataque ao Iraque. Não ficou claro se osalemães se absteriam ou votariam contra uma resolução do CSdeclarando guerra a Bagdá.Horas antes, França e Bélgica se comprometeram a desenvolver uma grande ofensiva diplomática nos próximos dias para que aUnião Européia (UE) possa se manifestar com "uma só voz",adotando, já na próxima semana, uma posição comum contrária auma eventual ação unilateral dos EUA.Entretanto, também hoje, em Londres, Blair disse contar com o apoio de outros países europeus, citando a Espanha do primeiro-ministro José Maria Aznar e a Itália, cujo chefe de governo é o conservador Silvio Berlusconi, revelando uma UE mais dividida do que unida.O endurecimento do discurso francês se deve, em parte, aos freqüentes comentários de que a posição francesa contra aofensiva não seria tão firme quanto se imagina. Isso teria levado alguns países a assimilarem o discurso americano no interior do CS, atualmente dividido entre os prós e os contra a guerra. Há dúvidas nos meios diplomáticos de que a França possa utilizar o seu direito de veto no CS. A maior parte dos diplomatas não acredita nessa possibilidade. A última vez que ele foi utilizado ocorreu nos anos 50, na crise do Canal de Suez.A questão iraquiana centralizou a celebração dos 40 anos do tratado que reconciliou os dois inimigos e os tornou a base daformação da UE. Numa declaração conjunta, os dois líderesanunciaram várias medidas, como a harmonização de leis, reuniões ministeriais conjuntas e adoção de posições comuns em política externa.

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