Chirac oferece uma voz moderada ao Oriente Médio

Quando o presidente Chirac discursou na Arábia Saudita, neste fim de semana, sobre a necessidade de evitar um "confronto de civilizações" entre o Ocidente e o mundo muçulmano, ele poderia estar pensando tanto na situação do Oriente Médio como na da França. Chirac sabe que a França, país com grande número de muçulmanos, judeus e muitos eleitores franceses que são, na melhor das hipóteses, ambivalentes em relação à imigração, não pode deixar que uma mentalidade do "nós contra eles" se torne hegemônica. Protestos no outono passado nos subúrbios franceses, onde muitos muçulmanos e seus filhos vivem, mostraram a revolta latente em relação ao desemprego e outros problemas. E Paris quer assegurar que a juventude francesa não se volte para o terror da mesma maneira que fizeram os muçulmanos britânicos que bombardearam o sistema de transporte de Londres. Assim, embora uma das principais metas de Chirac na Arábia Saudita seja ganhar contratos para empresas francesas, ele também se projeta como uma força de moderação para a região. Chirac clamou pelo respeito à diversidade cultural e crenças religiosas, apelou pela tolerância e pelo diálogo para evitar "maus entendidos", elogiou o papel moderador da Arábia Saudita no Oriente Médio e advertiu contra as forças que ameaçam destruir o vizinho Iraque. Mesmo antes de sua visita à Arábia Saudita, o líder francês manifestou-se contrariamente às caricaturas do profeta Maomé, que provocaram violentos protestos em países muçulmanos, dizendo que a liberdade de imprensa deve ser exercida com responsabilidade. E, na Arábia Saudita, assim como fez durante seus onze anos como presidente, Chirac cortejou os árabes. Sua oposição à invasão liderada pelos Estados Unidos, o tratamento hospitalar que a França deu a Yasser Arafat e os esforços com o governo americano para libertar o Líbano da Síria ajudaram a criar as credenciais de Chirac como um amigo ocidental e não um inimigo do Oriente Médio. Também em relação ao Hamas, Chirac está desenvolvendo uma posição matizada. A vitória do grupo militante nas eleições palestinas colocou a União Européia em uma situação delicada, já que a entidade lista o Hamas como uma organização terrorista. A classificação impediria a UE de negociar com o grupo. Mas ignorá-los completamente poderia enfraquecer a influência da União Européia no processo de paz do Oriente Médio e empurrar o Hamas para os braços do Irã, que pode bancar os palestinos facilmente com a fortuna que mantém com os altos preços do petróleo. Em sua visita à Arábia Saudita, Chirac manteve-se alinhado com a União Européia, que exige que o Hamas renuncie à violência e reconheça Israel. Contudo, Chirac relativizou essa posição em uma coletiva de imprensa em Riad, na segunda-feira. O presidente francês se disse contrário a sanções punitivas impostas ao governo liderado pelo Hamas porque os efeitos seriam sentidos "principalmente pelo povo palestino". Ele também poderia ter em mente os estimados cinco milhões de muçulmanos que vivem na França: embora muitos deles são indiferentes ao Hamas e se opõem à violência que os militantes usam contra os civis israelense, existe simpatia entre os muçulmanos franceses com a causa palestina. Um diplomata francês, em Paris, disse que Chirac pareceu responder à indicação dos Estados Unidos de que as sanções podem ser uma opção. Elas poderiam incluir o congelamento de contas palestinas, o impedimento de viagens de líderes palestinos e a proibição de que companhias ocidentais utilizem mão de obra palestina. Todas medidas que a França não apóia, afirma o diplomata.

Agencia Estado,

06 Março 2006 | 18h15

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