Chirac, privadamente, fala da "paranóia iraquiana de Bush"

Apesar da legítima e extrema emoção do dia 11 de setembro, a França continua desconfiada, ou prudente, diante das exortações de Bush à guerra contra o Iraque. A maior parte dos políticos concorda com a posição prudente de Jacques Chirac: "Subordinar um engajamento militar francês a uma decisão da ONU". Essa é a posição oficial de Chirac. Em particular, e após inúmeras "fugas", o tom de Chirac é diferente: no silêncio de seu gabinete presidencial, Chirac fala da "paranóia iraquiana de Bush".Não se pode esquecer que, durante muito tempo, Chirac foi simpático à "revolução iraquiana". Em setembro de 1975, classificou Saddam Hussein como "amigo pessoal" e garantiu-lhe "sua estima, consideração e afeição"... Como o tempo passa! Uma questão preocupa a classe política francesa: submetido a uma intensa pressão por parte de Washington, Chirac conseguirá manter sua posição? Alguns duvidam disso. Inclusive homens que não são suspeitos de antiamericanismo.É o caso do presidente do partido UDF (um partido centrista, de inspiração democrata-cristã), François Bayrou, cujo diagnóstico é severo: Bayrou não se limita a repetir incessantemente que essa operação "cheira a petróleo", é perigosa e vai enfurecer todo o mundo árabe etc. etc.Não. Bayrou insiste principalmente no fato de que uma guerra como essa seria inédita, sem precedentes. "Seria a primeira guerra que não corresponde a nenhum motivo de guerra. Até hoje, a natureza de um regime nunca foi motivo suficiente para uma guerra".E o que é pior, segundo Bayrou: se os Estados Unidos atacarem, o panorama geopolítico do planeta será abolido. "Se aceitarmos a idéia de os Estados Unidos decidirem sozinhos, ou até mesmo com seus aliados, entrar em guerra, a fisionomia do mundo será fixada para os próximos 100 anos", clama Bayrou.Se insistimos em Bayrou é porque ele é moderado e mais simpático aos americanos. Não é necessário dizer que os partidos tradicionalmente hostis aos Estados Unidos sustentam um discursocom mais cólera ainda: os "Verdes" europeus querem que, mesmoque a ONU dê seu "aval", os europeus não participem da briga."Em suma, a França está no Conselho de Segurança da ONU. Portanto, ela pode expressar seu ´veto´. Ela o fará? É a hora da verdade para Chirac", dizem os ´verdes´ franceses.Coincidência ou não, uma severa decisão militar foi tomada pela França hoje, dia seguinte ao 11 de setembro e nas vésperas de uma possível guerra: ela decidiu aumentar com muita tranqüilidade os créditos da Defesa Nacional.Esse aumento é ainda mais simbólico porque os outros orçamentos foram reduzidos ao "mínimo necessário" devido à crise econômica. Por exemplo, a Educação, a Cultura e a Pesquisa vão ficar com ares de um mendigo. Mas o Exército estará mais rico do que em qualquer outra ocasião.A oposição, sobretudo de esquerda e intelectual, está indignada. O ex-ministro socialista da Educação e da Cultura, Jack Lang, fala de "uma provocação para os professores e pesquisadores, que vão passar fome!" Por que Chirac impôs essa opção guerreira? Por causa da ameaça terrorista: policiais, militares, armamentos devem constituir um instrumento terrível para derrotar os "loucos por Deus". E o Exército francês deve poder participar de todas as operações da "polícia internacional".Ora, precisamente, as últimas guerras das quais o exércitofrancês participou (Kosovo e Afeganistão) revelaram um "abismo" entre o Exército americano e o Exército francês. Os armamentos dos franceses são tão obsoletos em relação aos dos americanos e até mesmo aos dos ingleses, que os generais franceses nem sequer foram informados, pelos americanos, das operações em que participariam. Os soldados franceses tampouco podiam entrar nos sistemas de comunicação dos exércitos americanos.Pressentiu-se, então, que se a França não se adaptasse rapidamente às normas modernas, seu exército seria definitivamente abandonado e rebaixado à posição de "pequeno exército provincial".Após o Afeganistão, Chirac logo compreendeu o que estava em jogo. Por isso impõe um tratamento preferencial à Defesa Nacional e aceita o risco de despir ministérios tão importantes como o da Educação e o da Pesquisa.

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