Chirac se defende em escândalo de gastos de viagem

O presidente Jacques Chirac aproveitou as comemorações do 14 de Julho, data nacional da França, para contra-atacar, diante da pressão da Justiça, que pretende esclarecer a origem dos pagamentos feitos por ele, de 2,4 milhões de francos, em dinheiro vivo (US$ 340 mil), de numerosas de suas viagens ao exterior, acompanhado da mulher, filha e colaboradores, de 1992 a 1995, quando era prefeito de Paris. O presidente denunciou uma manipulação, afirmando que se trata de "uma presunção de culpabilidade erigida em sistema, o que oculta o debate democrático às vésperas de decisões eleitorais fundamentais", prejudicando também, segundo ele, a imagem da França no exterior. Para Chirac, não são nem a Justiça nem os procuradores ou os juízes os responsáveis por essa evolução, mas sim o Estado e o governo (do primeiro-ministro Lionel Jospin) e o ministro da Justiça, que devem assumir sua responsabilidade. O presidente discorreu longamente sobre os fundos secretos utilizados para o pagamento dessas viagens, dizendo que só uma ínfima parte, 5%, está sendo utilizada pelo Palácio do Eliseu, sendo que 95% se encontram à disposição do Hôtel Matignon - o gabinete do primeiro-ministro, que utiliza centenas de milhões de francos dessa verba não contabilizada.Ele reafirmou que, se for convocado a depor, mesmo como testemunha assistida, não comparecerá, lembrando que o presidente não é um cidadão como os outros. "Se aceitasse, estaria admitindo fragilizar a autoridade do chefe de Estado, ficando numa posição de não poder assumir minhas responsabilidades."O presidente, na entrevista à TV francesa, aproveitou para explicar, sem convencer inteiramente, a utilização dos fundos secretos na compra de suas passagens aéreas para viagens de caráter particular. Disse que algumas dessas viagens, privadas e profissionais, foram oferecidas a certos colaboradores para agradecer por trabalhos feitos. Foi com surpresa que constatou que algumas das viagens que lhe foram imputadas nunca foram efetuadas nem por ele ou por seus amigos. Outras, segundo Chirac, foram efetuadas por seus colaboradores por meio da mesma agência de viagens, mas pagas por eles próprios. Chirac afirmou que as somas são muito inferiores aos 2,4 milhões de francos anunciados. E garantiu que os pagamentos foram feitos de forma legal.Para o presidente, essas viagens foram pagas em dinheiro por razões de discrição e segurança, lembrando que um ex-primeiro-ministro, como ele, é acompanhado de agentes de segurança. A necessidade de segurança explica também por que a agência de turismo fez as reservas em outros nomes, que não o seu, e só na última hora fornecia os verdadeiros nomes à empresa aérea, Air France.

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