Choque de filosofias

Debate entre Obama e Romney mostrou que eles têm visões diametralmente opostas sobre o papel do Estado na economia

Peter Baker, The New York Times, O Estado de S.Paulo

05 de outubro de 2012 | 03h01

WASHINGTON - Em algum lugar da tediosa avalanche de fatos, estatísticas e estudos lançados ao palco, nos EUA, na quarta-feira à noite, havia uma escolha filosófica fundamental sobre o futuro do país, muito possivelmente a mais dura em quase três décadas.

No primeiro embate direto entre o presidente Barack Obama e Mitt Romney, seus estilos pouco agressivos podem ter ocultado um choque feroz de pontos de vista não somente sobre impostos, gastos públicos e saúde, mas sobre o real papel do governo na sociedade americana numa época de problemas excruciantes.

De um lado estava um presidente que, apesar de reconhecer que o governo não é a solução para todos os problemas, argumentou que ele joga um papel fundamental na promoção do desenvolvimento econômico e para garantir equidade para vários segmentos da população. Do outro, um desafiante que, apesar de reconhecer o valor básico do governo, argumentou que seu maior objetivo era sair do caminho de povo livre e desencadear o espírito empresarial americano.

"O governador Romney tem uma perspectiva que diz que se cortarmos impostos num viés favorável aos ricos e eliminarmos regulamentos, ficaremos em melhor situação", disse Obama. E perguntou: "Devemos insistir em políticas econômicas que ajudaram a nos meter nessa confusão ou devemos adotar um novo patriotismo econômico que diz que os Estados Unidos progridem quando a classe média progride?". Romney contra-atacou com uma acusação a Obama. "O presidente tem uma visão muito parecida com a que tinha quando concorreu há quatro anos, de que um governo maior, gastando mais, tributando mais, regulando mais - se quiserem, um governo que distribui seu efeito de cima para baixo - funcionaria", disse ele. "Essa não é a resposta certa para os Estados Unidos. Eu restaurarei a vitalidade que fará os Estados Unidos funcionarem de novo."

A baixaria que caracterizou a campanha neste ano não esteve presente. Em vez disso, o debate foi talvez a articulação mais direta da profunda divisão nesta eleição que se ouviu no curso da campanha. Os candidatos passaram boa parte dos 90 minutos do debate na Universidade de Denver definindo-a em seus detalhes políticos estreitos, o que podem ter retirado parte da paixão de seus argumentos e fazê-los parecer menores do que eram. Mas em seu cerne, o debate expôs uma divisão sobre política doméstica maior do que qualquer outra desde que o presidente Ronald Reagan e Walter Mondale se enfrentaram em 1984.

Romney veio com a dificuldade maior de explicar sua visão do futuro e convencer o grupo minguante de eleitores indecisos de que ela representa o melhor caminho para um país atingido por um desemprego que não cai e uma dívida nacional crescente. Ele refutou calma e persistentemente as caracterizações de Obama de seus planos enquanto pressionava sua linha de ataque mais de lamento que de fúria sobre o presidente.

Se ele conseguiu o suficiente para mudar a dinâmica da disputa pode levar alguns dias para se evidenciar. Mas o campo de Romney esperava que seu desempenho fosse suficientemente forte para alimentar um sensação de retorno neste mês final da campanha. Após algumas semanas difíceis, os consultores de Romney ficaram animados a participar do debate tendo em vista as novas sondagens mostrando que a disputa estava apertada em âmbito nacional e um pouco mais apertada em alguns Estados decisivos.

A equipe de Obama chegou aqui preocupada que uma mídia noticiosa entediada exageraria qualquer reviravolta percebida de Romney para promover uma disputa mais acirrada.

O que eles obtiveram foi um diálogo substantivo, mas difícil de seguir, sobre questões de largo alcance. Ambos ofereceram suas posições em termos de preocupação com os americanos comuns, mas de extremidades opostas. Obama expressou preocupação com os que perderão se os programas do governo forem cortados muito profundamente, enquanto Romney falou daqueles que se sentem constrangidos por uma taxação e uma regulamentação excessivas do governo.

"A magnitude dos cortes de impostos de que você está falando, governador, acabaria resultando numa dificuldade severa para pessoas, mas, mais importante que isso, não nos ajudaria a crescer", disse Obama. Referindo-se a possíveis cortes no Medicaid, ele disse: "Isso pode não parecer muito importante quando se trata, vocês sabem, de números numa folha de papel, mas se estamos falando de uma família que tem um filho autista e depende do Medicaid, esse é um grande problema".

Romney falou do impacto dos persistentes problemas econômicos, notando que o custo de gasolina, eletricidade, comida e assistência médica cresceu. "Eu chamo isso de imposto da economia", disse. "Ele está sendo esmagador." O republicano concentrou-se no impacto das políticas de Obama sobre as pequenas empresas. "Não é apenas Donald Trump que você está taxando", disse ele. "São todas aquelas empresas que empregam um quarto dos trabalhadores nos Estados Unidos." E acrescentou: "Você aumenta impostos e mata empregos." Obama citou Abraham Lincoln e seus esforços para financiar uma ferrovia transcontinental, universidades federais e a Academia Nacional de Ciências. Foram esses tipos de investimentos, feitos por presidentes de ambos os partidos, que ajudaram a tornar a América grande ao oferecer oportunidade de progresso, argumentou o presidente.

"Se todos os americanos tiverem oportunidades, vamos ficar todos melhor", disse Obama. "Isso não restringe a liberdade pessoal. Isso a reforça. Por isso, o que eu tentei fazer como presidente foi aplicar esses mesmos princípios." Romney assinalou que os esforços do presidente para estimular o crescimento de energia limpa com US$ 90 bilhões de dinheiro do contribuinte como um exemplo do que um governo não deveria ser.

"O papel do governo não é se tornar um player econômico escolhendo vencedores e perdedores, dizendo às pessoas que tipo de tratamento de saúde elas podem receber, assumindo o controle do sistema de assistência à saúde", disse ele. "A resposta certa do governo é dizer como nós tornamos o setor privado mais eficiente e mais efetivo?"

De certa maneira, isso foi o ápice inevitável de um debate polarizado que acabou provocando a reação do Tea Party contra um governo ativista. Obama buscou a mistura certa de políticas e mensagens para diminuir a antipatia para com governo, dívida e liberalismo. Romney, embora um mensageiro imperfeito da direita, ofereceu uma revisão do pacto social da grande sociedade que nem o presidente Reagan conseguiu realizar.

Nas circunstâncias, tanto Obama como Romney podem realmente ser mais moderados em seu íntimo, dados seus históricos. Mas o debate expôs poucas nuances ou concordâncias. Enquanto se digladiavam na quarta-feira à noite, nenhum dos dois se esquivou da luta de uma geração. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

* É COLUNISTA

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