Choque de titãs na disputa presidencial

O magnata da mídia Rupert Murdoch manifesta-se sobre as declarações racistas de Trump e as críticas a John McCain

AMY CHOZICK e ASHLEY PARKER/ THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2015 | 02h00

No mundo rarefeito de magnatas de Nova York, Rupert Murdoch nunca pensou muito em Donald Trump. Os divórcios e casamentos de Trump vendiam jornais, mas, além isso, Murdoch não tinha tempo para o estilo bombástico de negócios e as atitudes exibicionistas. "Pretensioso" era como Murdoch com frequência descrevia Trump para amigos.

Houve um tempo em que Trump gritou que moveria um processo por calúnia quando o New York Post, de Murdoch, noticiou que o exclusivo clube de golfe Maidstone, em East Hampton, pretendia não aceitar Trump como sócio.

Depois, houve o caso bizarro do próprio divórcio espalhafatoso entre Murdoch e Wendi Deng, quando a filha de Trump, Ivanka, diferentemente de muitas figuras da sociedade nova-iorquina, permaneceu leal a Deng Murdoch, uma amiga íntima.

Agora, no momento em que Trump ostenta o primeiro lugar nas pesquisas e recebe críticas enérgicas de todo o espectro político por declarações racistas sobre imigrantes mexicanos e por criticar o currículo militar de John McCain, ele perdeu o homem que controla muitas das mais importantes organizações de mídia do país.

"Quando é que Donald Trump vai parar de constranger seus amigos, para não falar no país todo?", postou Murdoch no Twitter, no sábado, depois que Trump zombou de McCain por ele ter sido capturado quando era um piloto militar durante a Guerra do Vietnã.

No domingo, o Wall Street Journal, a joia da coroa do News Corporation, conglomerado de Murdoch, publicou um editorial corrosivo chamando Trump de "catástrofe". A primeira página do New York Post estampou "Don voyage" (trocadilho com o nome Donald e a expressão francesa "bon voyage", boa viagem), sob uma manchete declarando: "Trump está frito". O magnata respondeu desancando o diário no Twitter: "Vejam como as páginas ficaram pequenas", escreveu. "Parece um tabloide."

Ao perceber que ganhar do notoriamente voluntarioso Murdoch parece improvável, Trump se propôs a cortejar talvez o único executivo de mídia com igual poder de fogo entre republicanos: Roger Ailes, diretor presidente da Fox News. Como criador do canal de notícias a cabo mais bem posicionado do país e de um dos patrimônios mais lucrativos da indústria do cinema, o estúdio 21st Century Fox, Ailes tem tido liberdade de operar em grande parte fora da tutela de Murdoch.

Trump e Ailes, a quem o pré-candidato chamou de "um dos maiores gênios da história da televisão", tiveram um almoço no mês passado em Nova York. Trump, contudo, não tentou marcar uma reunião com Murdoch, como alguns outros candidatos republicanos fizeram.

A Fox News não deixou barato as observações de Trump sobre McCain. Na segunda-feira, o apresentador Bill O'Reilly repreendeu Trump. "Ele estava numa missão de bombardeio, foi abatido, foi torturado", disse O'Reilly. "Vamos lá, Donald, você sabe que o jeito como a coisa foi dita não foi correto!" Ao que Trump replicou com a coisa mais perto de um pedido de desculpas: "Se houve certamente um mal-entendido, eu o retiraria inteiramente."

A CNN e a MSNBC também dedicaram horas a Trump, cujo histrionismo tem ajudado nas pesquisas de opinião. No entanto, seu tratamento pela Fox News tem sido mais crucial em razão da influência que o canal exerce sobre a base do Partido Republicano. E a Fox News, como o canal do primeiro debate das primárias, em 6 de agosto, decidiu que incluirá os dez candidatos mais bem situados nas pesquisas nacionais de opinião. Trump é atualmente o primeiro colocado em muitas sondagens.

Ailes, que recentemente renovou seu contrato plurianual, gosta de sua independência editorial e de sua posição de voz do contra na mídia noticiosa. No tratamento sério dispensado até agora a Trump pela Fox News, antigos associados de Ailes descortinam um plano maior. Se o balão de Trump no fim das contas estourar, segundo eles, isso daria tempo para outros pré-candidatos republicanos aperfeiçoarem suas mensagens e se tornarem concorrentes mais fortes. De um jeito ou de outro, Ailes se beneficiaria com a audiência.

Para Murdoch, suas desavenças com Trump são muito anteriores à briga atual - embora a divergência política tenha sido sobre o tema de imigração. Murdoch, que é australiano, há muito vem pleiteando uma reforma do sistema de imigração dos Estados Unidos que inclua um caminho para a cidadania das 11 milhões de pessoas que vivem ilegalmente nos EUA.

Trump, em sua investida presidencial, advertiu que os imigrantes mexicanos estavam trazendo drogas para o país, os chamou de "estupradores" e criminosos - uma declaração que muitos republicanos temem que prejudique profundamente o partido entre os eleitores hispânicos.

"Os imigrantes mexicanos, como ocorre com todos os imigrantes, apresentam índices de criminalidade muito inferiores aos dos nativos", escreveu Murdoch no Twitter, dia 12. "Trump está errado." Mas as observações produziram uma resposta emocional populista de muitos conservadores, para os quais a oposição à cidadania dos imigrantes é um ponto de mobilização fundamental.

Ann Coulter, uma comentarista conservadora cujo novo livro Adios, America! aborda o sistema de imigração nos EUA, disse: "A imigração é o novo teste para a direita". "Neste momento, é Trump! Trump! Trump!, pois ele é o único que está falando sobre imigração", disse.

A história de Murdoch com Trump, porém, vai muito além da imigração. Durante anos, o nome Trump numa manchete significava leitores e vendas nas bancas para o New York Post, que quebrou o próprio recorde de matérias de primeira página com um único tópico, nos anos 90, com sua cobertura do affair entre Trump e Marla Maples e sua separação de Ivana.

Trump beneficiou-se por muito tempo da publicidade que o New York Post lhe proporcionou - mesmo em manchetes como "O melhor sexo que já tive", segundo Maples, que poderiam constranger uma pessoa reservada - quando transitava de pomposo incorporador imobiliário para ainda mais pomposo astro de reality show.

Murdoch, que é relativamente discreto, preferiria uma redação manchada de tinta a uma cobertura folheada a ouro, foi ofuscado pelo exibicionismo e a fanfarronice de Trump, segundo amigos. Trump defendeu Murdoch durante o escândalo dos grampos telefônicos em seus jornais britânicos. Quando uma comissão parlamentar declarou Murdoch "despreparado" para dirigi-los, Trump disse: "Eles deviam ter a sorte de ser tão despreparados quanto ele", segundo o jornal The Australian - também de Murdoch.

Murdoch cruzou com Trump mais frequentemente quando sua agora ex-mulher, Deng Murdoch, ficou amiga íntima da filha de Trump, Ivanka. O casal Murdoch e a senhora Trump e seu marido, Jared Kushner, o publisher do New York Observer, tiravam férias no iate de 55 metros de Murdoch. O divórcio de Murdoch, em 2013, pôs fim a essas excursões, embora o australiano continue amigo de Kushner.

Mas aAlém da ameaça esporádica de um processo judicial, as tensões entre Trump e Murdoch não evoluíram para uma guerra declarada até este ano. "Uau, sempre gostei do @nypost, mas eles realmente mentiram quando fizeram minha cobertura em Iowa", escreveu Trump no Twitter, em janeiro. "Casa lotada, ovação de pé, melhor discurso! Triste." / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

SÃO JORNALISTAS

 

Tudo o que sabemos sobre:
visão global

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.