Jorge Adorno/Reuters
Jorge Adorno/Reuters

Choque entre policiais e sem-terra no Paraguai deixa 17 mortos e 80 feridos

Segundo Ministério do Interior, 321 homens da polícia cumpriam mandado de reintegração de posse

O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2012 | 03h02

ASSUNÇÃO - Um confronto entre policiais e trabalhadores sem-terra deixou ontem pelo menos 17 mortos e 80 feridos no Paraguai. Segundo o Ministério do Interior, 321 homens da polícia cumpriam um mandado de reintegração de posse quando foram emboscados por cerca de 150 camponeses armados e reagiram. O presidente Fernando Lugo enviou o Exército ao Departamento de Canindeyú, a 270 quilômetros do Brasil, para resolver a disputa.

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Dos mortos, sete são policiais e dez, camponeses. O conflito durou cerca de oito horas e ocorreu em uma propriedade de 2 mil hectares que pertence ao empresário e ex-senador do Partido Colorado Blas Riquelme, em Colônia Ybyrá Pytá, a 380 km de Assunção. Após a chegada do Exército, os sem-terra foram dispersados.

À noite, Lugo destituiu o ministro do Interior, Carlos Filizzola, e o comandante de Polícia, Paulino Rojas. O próprio Filizzola anunciou à imprensa sua destituição e a Câmara de Deputados, em sessão extraordinária, preparava-se para tramitar um julgamento político contra o ministro por mau desempenho de funções.

À rádio 780 AM, um dos policiais que participou do confronto e preferiu não se identificar disse que a maioria dos tiros acertou o pescoço e a cabeça dos agentes. Entre os mortos estão o comandante e o subcomandante do Grupo Especial de Operações (GEO) da Polícia Nacional, Erven Lovera e José Sánchez. O líder sem-terra Avelino Espínola também foi morto.

Sob a alegação de razões de segurança, jornalistas foram impedidos de acompanhar a ação e tiveram de ficar a alguns quilômetros da área onde ocorreu o confronto. Logo após o ataque, cerca de 500 policiais cercaram a área e um helicóptero ajudou a resgatar os feridos.

A reserva tinha sido invadida havia cerca de dois anos e a tensão vinha crescendo nas últimas semanas, após a Justiça ter emitido uma decisão favorável aos proprietários do terreno.

Segundo Filizzola, a polícia reagiu após o ataque dos agricultores que estariam armados com fuzis e pistolas. "Eles dispararam e a polícia teve de responder", disse o ministro. "Atuamos com base em uma ordem judicial e conforme manda a lei."

Por meio de comunicado, Lugo condenou a violência e declarou apoio absoluto às forças de segurança. "Ordenei às Forças Armadas que apoiem essa operação", afirmou. "Todas as áreas do governo estão atuando para devolver a calma à região."

Lugo se reuniu ao longo do dia com o comando das Forças Armadas e ministros para discutir a crise. O Senado discute a implementação de um estado de exceção em Canindeyú.

EPP. O governo, por enquanto, descarta a participação do Exército do Povo Paraguaio, (EPP), grupo armado que atua na região e ataca alvos policiais. "Até o momento, não temos informações sobre a participação do EPP", declarou Filizzola.

De acordo com o chefe de investigações da Polícia de Canindeyú, Walter Gómez, os camponeses sabiam manejar bem o armamento que carregavam e atiravam para matar. Apesar de o governo não ver indícios da participação do EPP no confronto, a promotora Ninfa Aguilar disse que o os sem-terra usaram táticas comuns às do grupo.

Segundo ela, os agricultores estavam fardados, tinham armas pesadas e pareciam ter treinamento militar. "Não eram simples camponeses. Estavam prontos para o combate", afirmou.

Sem-terra. Os ocupantes o terreno em Colonia Ybyrá Pytá fazem parte da Liga Nacional dos Carperos, uma organização sem-terra paraguaia, segundo o líder camponês José Rodríguez. Ele negou as acusações de que os agricultores teriam treinamento militar e questionou a versão da polícia. "Os companheiros que resistem ao ataque policial não têm armas de guerra, apenas espingardas 22 mm", disse. "O confronto pode ter sido provocado pela polícia. São camponeses humildade que lamentavelmente optaram por esse caminho."

José Riquelme, filho do empresário, contesta a ocupação e diz que o terreno é uma área de preservação. A região de Canindeyú, próxima da fronteira com o Paraná e o Mato Grosso do Sul, é conhecida pela presença dos "brasiguaios", brasileiros radicados no Paraguai.

A reforma agrária é uma das principais promessas de campanha de Lugo. A pobreza extrema no campo atinge 32,4% da população rural. Propriedades com menos de 20 hectares respondem por apenas 4,3% da terra cultivada no país. / FABIULA WURMEISTER, DE FOZ DO IGUAÇU, ESPECIAL PARA O ESTADO. COM AFP, AP e REUTERS

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