Choques deixam 60 feridos em Honduras

Manifestantes e soldados se enfrentam nas ruas da capital

João Paulo Charleaux, Reuters e Afp, O Estadao de S.Paulo

30 de junho de 2009 | 00h00

Um dia depois do golpe militar que depôs o presidente hondurenho, José Manuel Zelaya, soldados do Exército enfrentaram cerca de 3 mil manifestantes ontem nas proximidades do palácio presidencial, em Tegucigalpa. O confronto deixou pelo menos 60 feridos. A coordenadora nacional de difusão da Cruz Vermelha de Honduras, Norma Archila, disse ao Estado não descartar a possibilidade de um aumento no número de vítimas.   Veja também: Deposição de Zelaya é ilegal, diz Obama Golpes de Estado são cada vez mais raros, mostra pesquisa Lula ouve líder e busca isolar país Diplomatas denunciam 'blecaute midiático' Chávez fortalece opositores do bolivarianismo    Podcast: Lula condena ato que tirou o chefe de estado de Honduras do poder Novo presidente responde ameaças de Chávez Na Nicarágua, Zelaya conta como foi destituído Entenda a origem da crise política em Honduras  Podcast: Professor da Unesp analisa Golpe de Estado em Honduras Perfil: Eleito pela direita, Zelaya fez governo à esquerda  Ficha técnica: Honduras, um país pobre e dependente dos EUA Um dos funcionários do governo deposto, Carlos Zelaya, que participava das manifestações na capital disse que "os militares saíram do palácio do governo batendo nos manifestantes e procurando pelos líderes do grupo". Vários disparos foram ouvidos. Zelaya diz que além dos militares, alguns manifestantes também portavam armas de fogo.O confronto ocorreu no dia em que os governos de Venezuela, Equador, Nicarágua e Bolívia - países-membros da Aliança Bolivariana para as Américas (Alba) - anunciaram a retirada de seus embaixadores da capital hondurenha e advertiram que não reconhecerão os embaixadores designados pelo governo autoproclamado.Os três únicos países que fazem fronteira seca com Honduras - Guatemala, El Salvador e Nicarágua - anunciaram ontem que suspenderão o comércio com o vizinho por 48 horas, aumentando ainda mais o isolamento de Honduras.Hoje, às 12 horas (horário de Brasília), o presidente deposto fará um discurso na Assembleia-Geral da ONU, em Nova York, quando deve ser aprovada uma resolução condenando o golpe em Honduras.O presidente da Assembleia-Geral, o nicaraguense Miguel D?Escoto, pediu que os 192 Estados-membros da ONU protestem contra a queda de Zelaya e condenem as "forças reacionárias" que tomaram o poder.O porta-voz do presidente de Honduras, Guillermo Paz Manuelles, disse que ele e outros membros do governo deposto estão sendo ameaçados de prisão, deportação e morte pelos golpistas. "Todas as pessoas próximas do presidente estão na clandestinidade", disse. Movimentos sociais e sindicais de Honduras divulgaram ontem uma lista com os nomes de oito militantes ameaçados de morte. Depois de obrigar Zelaya e a chanceler hondurenha, Patricia Rodas, a abandonar o país, os militares estariam perseguindo membros do Bloco Popular Sindical e da Coordenadoria Popular de Movimentos Sociais (Copinh), que apoiavam Zelaya.GOLPEZelaya foi preso por militares em casa na noite de domingo e enviado de avião, ainda de pijamas, para um exílio forçado na Costa Rica. O presidente deposto pressionava pela realização de uma consulta popular, que seria realizada no domingo. O plebiscito permitiria a Zelaya alterar a Constituição para candidatar-se à reeleição nas eleições de novembro. A Suprema Corte e o Legislativo consideraram a votação ilegal e recorreram ao Exército para derrubar Zelaya. Logo após o golpe, os deputados escolheram Roberto Micheletti, líder do Congresso, para presidente de facto do país.Em entrevista à Reuters, Micheletti disse que o golpe salvou o país do "chavismo" e disse que Zelaya estava desrespeitando as leis de Honduras. "O presidente estava seguindo um modelo que não é aceito pelos hondurenhos e levando o país em direção ao ?chavismo?", disse. Ex-aliado de Zelaya, Micheletti opunha-se à aliança com o presidente venezuelano, Hugo Chávez. "Honduras está mais democrática hoje do que há três dias", disse o presidente designado. "Não houve golpe. O país e a maioria da população apoia essa sucessão democrática." Para ele, se Zelaya permanecesse no poder, o país teria de acabar seguindo não a lei, mas os caprichos do presidente.Chávez voltou a dizer ontem que não tolerará agressões a diplomatas venezuelanos. "Se acontecer algo com o embaixador da Venezuela, isso seria motivo de guerra. Por isso, os golpistas devem ter muito cuidado."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.