Choro calculado ou espontâneo

Provável presidente da Câmara americana une carisma e lágrimas, a exemplo de Bob Dole e Abraham Lincoln

Jennifer Steinhauer / THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2010 | 00h00

O provável novo presidente da Câmara; há tanto para se pensar. Qual será a posição de John Boehner quanto às políticas energéticas? Será que ele conseguirá conter Michele Bachmann? E quantas vezes será que ele vai chorar? Muito foi dito a respeito de Boehner, o republicano de Ohio, e sua personalidade de machão - aqueles cigarros Camel, a voz de barítono e a infância briguenta que incluiu o furto de caixas de cerveja do bar de seu pai. Mas Boehner tem um outro lado, caracterizado pelos lábios trêmulos e pela umidade nos cílios, que costuma vir à tona em momentos de emotividade pública.

Houve o caso do soluço que percorreu o mundo todo na noite da eleição, quando Boehner falou aos seus eleitores depois que se tornou claro que os republicanos recuperariam o controle da Câmara. Engoliu e tentou outra vez. Mas descrever todos os empregos ruins pelos quais ele já passou só fez com que ele quase engasgasse.

Embora para muitos americanos esta possa ter sido a primeira vez em que viram Boehner chorar, seus amigos, os membros de sua equipe de assessores e os repórteres que acompanham seus passos já estavam preparados para aquele momento. Ele é conhecido por chorar durante discursos feitos na Câmara.

No início deste ano, Boehner chorou quando recebeu da organização Americanos Unidos pela Vida o prêmio Defensor da Vida Henry J. Hyde, ao falar a respeito de Hyde (lá estava o lencinho) e de sua própria família.

"Aprendi que há certos temas sobre os quais é melhor eu não me manifestar. Não posso discursar em escolas durante uma campanha. Todas aquelas criancinhas adoráveis, não consigo me controlar." Quanto aos seus lapsos no Capitólio: "Há certos temas que me afetam", disse ele, "e há certos momentos na Câmara em que nos vemos envolvidos em grandes disputas, acabamos cansados, e as emoções ficam mais à flor da pele".

A combinação entre a política e as lágrimas pode ser tóxica, ou ao menos controvertida. Dois tipos de análise costumam ser aplicados aos homens que choram na política: a emasculação e, mais provável, a humanização.

Mas a aceitação social das lágrimas masculinas variou no decorrer das décadas, disse Tom Lutz, professor de redação da Universidade da Califórnia em Riverside e autor de Crying: The Natural and Cultural History of Tears (algo como Chorar: A História Natural e Cultural das Lágrimas).

"Os homens das classes mais altas choravam abertamente e com frequência no século 18", disse Lutz. "Abraham Lincoln chorou durante discursos. E os homens choram mais abertamente (hoje) do que o faziam 50 anos atrás. Bob Dole chorou em público exatamente duas vezes antes de sua campanha de 1996. No início da década de 90, Bill Clinton transformou o significado político do choro; isto ganhou uma importância especial para o eleitorado feminino. Dole não foi mais capaz de controlar as lágrimas e passou a chorar com maior frequência."

Talvez tudo não passe de um hábito da família. "Muitos de nós ficamos desse jeito", contou Lynda Meineke, uma das irmãs de Boehner, dizendo que viu o irmão mais velho, Bob, se emocionar outro dia ao falar a respeito do irmão, John. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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