CIA conduziu mais de mil vôos secretos sobre a Europa

A Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA) conduziu mais de mil vôos secretos sobre a Europa desde 2001, alguns deles para transferir suspeitos de "terrorismo", revelou nesta quarta-feira uma investigação conduzida por uma comissão de inquérito do Parlamento Europeu. Os eurodeputados investigaram as denúncias de atividades ilegais da CIA na Europa e comentaram que os incidentes nos quais suspeitos de "terrorismo" foram entregues a agentes da agência não parecem ter sido casos isolados. Em muitos casos, apuraram eles, os suspeitos eram transportados pelo continente a bordo dos mesmos aviões e por agentes cujos nomes repetiram-se diversas vezes durante a investigação, o que sugeriria um padrão de operação. Os parlamentares europeus apresentaram hoje o primeiro relatório preliminar das investigações, durante a qual apuraram dados fornecidos pela Eurocontrol, a agência de segurança em transporte aéreo da União Européia (UE), e analisaram as informações compiladas ao longo de três meses de audiências e mais de 50 horas de depoimentos de indivíduos que disseram ter sido seqüestradores e torturados por agentes secretos americanos. Também foram ouvidos funcionários europeus e ativistas dos direitos humanos. "Depois do 11 de Setembro, dentro do contexto do combate ao terrorismo, a violação dos direitos humanos e fundamentais não foi isolada nem representou uma medida excessiva limitada a um breve período de tempo, mas sim uma prática regular e generalizada que envolveu a maior parte dos países europeus", disse o eurodeputado Giovanni Claudio Fava (Itália), autor do relatório preliminar. De acordo com os dados coletados, os aviões operados pela CIA fizeram diversas escalas em solo europeu, violando um tratado internacional que exige a declaração da rota e das escalas dos aviões em missões policiais, disse ele. "As rotas desses vôos pareciam bastante suspeitas. É difícil acreditar que tantas escalas serviam apenas para reabastecimento", declarou o italiano. Detenção Ainda segundo Fava, a CIA é claramente responsável por deter suspeitos de "terrorismo" em território europeu e transferi-los a países onde poderiam ser submetidos a tortura, numa violação dos tratados de direitos humanos no continente. Não se sabe quantos suspeitos de "terrorismo" foram transportados nesses vôos, prosseguiu o eurodeputado. Também não é possível confirmar se houve cumplicidade dos governos europeus, mas ele disse considerar bastante improvável que governos da UE - ele mencionou nominalmente Itália, Bósnia e Suécia - nada sabiam sobre as operações da CIA. Segundo ele, a CIA violou a Convenção de Chicago, um tratado internacional que rege o tráfego aéreo. O acordo proíbe o uso de aeronaves privadas para missões policiais aéreas. Pela convenção, todas as aeronaves em missões militares, policiais ou alfandegárias são consideradas aviões de Estado e precisam de autorização especial para pousar nos países signatários. Friso Rosca Abbing, porta-voz do comissário de Justiça da UE, Franco Frattini, não emitiu comentários. "Vamos aguardar a conclusão do inquérito", disse ele. Até o momento, os EUA não emitiram comentários públicos sobre o assunto.

Agencia Estado,

26 Abril 2006 | 19h52

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