CIA desconhecia origem de técnicas

Práticas usadas por agência foram copiadas de regimes despóticos

Scott Shane e Mark Mazzetti, The New York Times, O Estadao de S.Paulo

23 de abril de 2009 | 00h00

O uso de técnicas violentas de interrogatório contra suspeitos de terrorismo começou depois que chefes da Agência Central de Inteligência (CIA) foram seduzidos pela ideia de que poderiam ser mais duros sem correr o risco de ter problemas legais. Eles acreditavam estar usando métodos aprendidos durante o treinamento militar.Como aquilo poderia ser tortura? Numa série de reuniões de alto nível, em 2002, sem uma única discordância de membros do gabinete ou de congressistas, os EUA adotaram, pela primeira vez, os métodos violentos de interrogatório que sempre haviam condenado.Esse extraordinário consenso foi possível, como mostra um estudo do New York Times, em grande parte porque nenhum envolvido - nem os dois funcionários graduados da CIA que estavam promovendo o programa, os assessores do presidente George W. Bush, ou os líderes dos comitês de inteligência do Senado e da Câmara - investigou as origens abjetas das técnicas que eles estavam aprovando quase sem debate. Segundo diversos ex-funcionários de alto escalão envolvidos nas discussões há sete anos, eles não sabiam que o programa de treinamento militar, chamado Sere (sigla em inglês para Sobrevivência, Evasão, Resistência e Fuga) havia sido criado décadas antes para dar a pilotos e soldados americanos uma amostra de métodos de tortura usados por comunistas na Guerra da Coreia, métodos que haviam arrancado confissões falsas de americanos. Mesmo o diretor da CIA, George Tenet, que insistiu em dizer que a agência havia pesquisado exaustivamente a proposta antes de repassá-la a outros funcionários, não conseguiu examinar a história do método mais chocante - a técnica de simulação de afogamento. Os funcionários informados por ele não ficaram sabendo que atos de simulação de afogamento tinham sido condenados nos EUA em julgamentos por crimes de guerra após a 2ª Guerra e eram as técnicas favoritas - todas, bem documentadas - de regimes despóticos desde a Inquisição espanhola.Uma tábua de afogamento usada no tempo de Pol Pot (antigo líder do Khmer Vermelho entre 1976 e 1979) chegou a ser exibida no museu do genocídio no Camboja. Eles não sabiam que alguns veteranos, instrutores do próprio programa Sere, haviam advertido em memorandos internos que, questões morais à parte, os métodos eram simplesmente ineficazes. O processo foi "uma tempestade perfeita de ignorância e entusiasmo", disse um ex-agente da CIA. Hoje, questionados sobre como isso pôde acontecer, funcionários do governo Bush distribuem acusações. Alguns culpam a CIA, enquanto ex- funcionários da agência culpam, por sua vez, o Departamento de Justiça ou a Casa Branca.DECISÕES DEFICIENTESPara Philip Zelikow, que trabalhou como consultor para a ex-secretária americana de Estado Condoleezza Rice em assuntos ligados aos interrogatórios, em 2005 e 2006, as deficiências na tomada de decisões prejudicaram Bush e os EUA. "Um trabalho competente de equipe poderia ter levado rapidamente à pesquisa de fatos históricos relevantes e ideias dos melhores interrogadores militares e aplicadores da lei, além de lições das dolorosas experiências britânica e israelense", disse Zelikow. "Especialmente numa época de grande estresse, quando caminhamos nesse campo minado, o presidente deveria ter recebido a análise mais informada e profunda possível."

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