Doug Mills/The New York Times
Doug Mills/The New York Times

CIA manteve programa para treinar animais espiões na Guerra Fria 

O corvo, por exemplo, foi por muito tempo uma figura central de um programa que a CIA utilizou durante a Guerra Fria em sua luta contra a União Soviética

Paul Handley / France Presse , O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2019 | 08h00

WASHINGTON - No início de 1974, Do Da foi o melhor aluno de seu curso de espionagem e estava a caminho de se tornar um agente da Agência de Inteligência Americana (CIA) que voava alto: tinha um desempenho melhor quando estava sob pressão, podia suportar mais peso do que os outros e fugir daqueles que o atacavam.

Mas quando foi submetido ao exame mais difícil de seu treinamento, desapareceu após ser vencido por dois exemplares de sua própria espécie: corvos. O pássaro foi por muito tempo uma figura central de um programa que a CIA utilizou durante a Guerra Fria em sua luta contra a União Soviética.

A agência de inteligência americana publicou dezenas de documentos sobre programas de treinamento de gatos, cães, golfinhos e pássaros que pretendia utilizar como "espiões".

A CIA analisou a forma de utilizar gatos como escutas itinerantes - "veículos de vigilância de áudio" - e colocar implantes elétricos no cérebro de cachorros para ver se podiam ser controlados à distância. Mas nenhum desses programas chegou muito longe.

Mais envergadura ganharam os experimentos com golfinhos, que foram treinados para se tornar potenciais sabotadores e espiar os submarinos nucleares soviéticos, a maior ameaça para o poderio americano em meados dos anos 60. 

Os projetos Oxygas e Chirilogy buscaram determinar se os golfinhos podiam ser treinados para substituir os mergulhadores humanos e colocar explosivos em barcos amarrados ou em movimento ou esgueirar-se nos portos soviéticos com o objetivo de depositar balizas acústicas ou instrumentos de detecção de mísseis. Esses projetos também acabaram sendo abandonados.

Sensores vivos

Mas o que dominou a imaginação dos responsáveis da inteligência americana durante a Guerra Fria foram os pássaros: pombos, falcões, corvos, corujas e certas aves migratórias.

A CIA chegou a recrutar ornitólogos para que determinassem quais aves migratórias passavam parte do ano em uma região situada ao sudeste de Moscou, nos arredores da cidade de Chikhany, na qual os soviéticos dispunham de fábricas de armas químicas.

A agência percebia os pássaros como "sensores vivos" que, sobre a base de sua alimentação, podiam revelar em suas entranhas as substâncias que os soviéticos estavam experimentando.

No início dos anos 70, a CIA se inclinou pelas aves de rapina e pelos corvos, com a esperança de que pudessem ser treinados para participar de missões como a colocação de microgravadores nos vãos das janelas. 

No âmbito de um projeto batizado de Axiolite, treinadores instalados na ilha de San Clemente, na costa sul da Califórnia, ensinaram pássaros a voar vários quilômetros entre um barco e a costa.

Se um dos "candidatos" fosse aprovado no exame, era enviado a território soviético com uma câmera pendurada no corpo para fazer imagens e voltar ao ponto de partida. 

As aves eram inteligentes, mas "talvez lentas demais para evitar os ataques" de outros pássaros, apontou um relatório. Dois falcões morreram de doenças. 

O pássaro mais promissor era o corvo Do Da. Resistente, capaz de determinar altura e ventos favoráveis e suficientemente astuto para burlar os ataques de seus congêneres: era "a estrela do projeto", escreveu um cientista. 

Mas a sessão de treinamento de 19 de junho resultou fatal. Outros corvos o atacaram e ele nunca mais foi visto.

Pombos sobre Leningrado 

Os pombos, utilizados durante dois milênios como mensageiros e para tirar fotos durante a 1ª Guerra, foram outra das grandes esperanças dos serviços de inteligência americanos. A CIA dispunha de centenas de pombos, que treinava em seu território equipando-os com câmeras.

O objetivo era que espionassem os estaleiros de Leningrado (atual São Petersburgo), onde os soviéticos construíam seus submarinos nucleares.

Mas a experiência não resultou boa o bastante: muitas das aves fugiram com suas câmeras caras e nunca mais foram encontradas.

Os documentos publicados não especificam se chegou-se a realizar a operação de Leningrado, mas um documento da CIA de 1978 indica claramente que existiam dúvidas demais sobre a confiança destas aves. / AFP  

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