Ciberataque, a arma lógica da Coreia do Norte

Pyongyang talvez relute em entrar num conflito militar com Seul, mas os ataques cibernéticos podem ser desastrosos, criam um clima de medo e podem ser negados

É JORNALISTA , STEVEN, BOROVIEC, THE CHRISTIAN SCIENCE MONITOR, É JORNALISTA , STEVEN, BOROVIEC, THE CHRISTIAN SCIENCE MONITOR, O Estado de S.Paulo

23 de março de 2013 | 02h09

Depois que um aparente ciberataque interrompeu na quarta-feira as operações de várias emissoras e bancos sul-coreanos, as autoridades procuram descobrir se a Coreia do Norte está envolvida no caso. Se estiver, ela demonstra que, apesar da enorme diferença em termos de desenvolvimento entre os dois países, o Norte é capaz de afetar seu rival do Sul de uma maneira não convencional, mas bastante prejudicial.

Apesar de todo seu palavreado bombástico, a Coreia do Norte talvez relute em entrar num conflito militar com o Sul e seus aliados americanos por causa da superioridade da força militar da aliança. Mas os ciberataques podem ser desastrosos, criam um clima de medo e se esquivam de toda consequência direta. Esse tipo de ataque é conveniente para a Coreia do Norte.

"A guerra cibernética está a seu alcance. É barata e pode ser perfeitamente negada", afirma Aidan Foster Carter, especialista em política da Coreia na Universidade de Leeds.

Os ataques cibernéticos contra agências governamentais e instituições financeiras sul-coreanas em 2009 e 2011 foram atribuídos à Coreia do Norte. E ela fez várias ameaças, tendo como alvo, especificamente, a mídia conservadora sul-coreana (até mesmo algumas das emissoras que relataram os distúrbios ocorridos na quarta-feira), que costuma criticar ferozmente Pyongyang.

Os ataques ocorreram num clima de tensão na Península Coreana, enquanto o Norte continua fazendo ameaças de retaliação em razão dos exercícios militares EUA-Coreia do Sul, e as novas sanções impostas pela ONU depois do terceiro teste nuclear realizado pela Coreia do Norte.

A Comissão das Comunicações da Coreia, entidade que fiscaliza o setor, anunciou ontem que parte do código que danificou as emissoras veio de um endereço do Protocolo de Internet (PI) na China. Embora isso não possa ser atribuído diretamente à Coreia do Norte, acredita-se que o país tenha uma vasta rede de hackers, alguns dos quais operam na China, informaram desertores.

A China negou ter responsabilidade pelo ataque dos hackers, afirmando que esses incidentes anônimos do outro lado da fronteira constituem um problema global. "Os hackers frequentemente usam os endereços de PI de outros países para realizarem seus ataques", disse aos repórteres o porta-voz do Ministério do Exterior, Hong Lei, em Pequim.

Um representante de alto escalão da presidência da Coreia do Sul disse à agência de notícias Yonhap: "O governo sul-coreano está analisando cuidadosamente o incidente e considerando todas as possibilidades, embora suspeite que o ataque tenha sido realizado pela Coreia do Norte".

Desde a assinatura do armistício que efetivamente pôs fim à Guerra da Coreia, em 1953, os dois países tomaram direções muito diferentes, e as divergências entre ambas estão claramente demonstradas em sua respectiva capacidade tecnológica.

Segundo dados divulgados em julho de 2012 pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), há mais conexões de internet do que habitantes na Coreia do Sul. Muitas tarefas diárias são realizadas online, desde as operações bancárias e a compra de um filme ou de passagens de trem a interações sociais. Portanto, a Coreia do Sul tem muito a perder com os ataques perversos contra a infraestrutura de tecnologia de informação (TI) do país.

Por outro lado, na Coreia do Norte, que regularmente sofre apagões, apenas uma fração da elite privilegiada pode entrar online, e, mesmo assim, só tem acesso a uma intranet controlada pelo Estado que só permite sites previamente aprovados.

Embora a Coreia do Norte seja em geral subdesenvolvida, tem um exército de hackers treinados pelo Estado e aparentemente capazes de realizar ciberataques. "Os hackers norte-coreanos são obviamente muito capacitados em termos tecnológicos", diz Moon Young-woo, presidente da IT Bank, uma companhia que oferece consultoria sobre proteção da informação e prevenção de ação de hackers.

"Sua capacidade é considerável. Se eles forem os autores dos ataques, provavelmente foi para pressionar o novo governo sul-coreano. Se os autores foram hackers chineses, provavelmente trata-se de algumas pessoas que querem exibir sua competência neste campo", diz Moon.

E embora a Coreia do Sul seja a mais desenvolvida dos dois países, mesmo assim é pelo menos um pouco vulnerável aos ataques. Depois da perturbação provocada na quarta-feira, bancos e emissoras voltaram a operar sem muita demora, mas é possível que, algum dia, um vírus perverso mais eficiente faça mais estragos.

Depois do ataque de 2011, contra sites do governo e de bancos, a Coreia do Sul anunciou a reformulação de sua estratégia de segurança cibernética que envolveu mais de 12 ministérios. O sistema reforçado aparentemente tem conseguido impedir invasões das redes.

"As defesas da Coreia do Sul são suficientemente fortes para fazer frente aos tipos de ataques que vimos no passado. Mas se um grupo de hackers realizar um ataque direcionado, e tiver desenvolvido um vírus específico para determinado alvo, será muito difícil defender-se, pois o vírus talvez seja novo e desconhecido", afirma Hong Min-pyo, presidente do SEWorks e um dos maiores especialistas em TI da Coreia.

Hong é o que os coreanos chamam de hacker "bom" e sua função é impedir os esforços de hackers perversos para espalhar códigos destrutivos.

Embora na Coreia do Norte as liberdades online ainda sejam excepcionalmente limitadas, há alguns meses Pyongyang empreendeu algumas iniciativas cautelosas com o objetivo de realizar uma abertura tecnológica. Desde o fim de fevereiro, visitantes estrangeiros no país do Norte puderam usar celulares e a internet. O serviço só está disponível aos estrangeiros, mas vale a pena observar que permite o acesso à mídia social como o Twitter e o Instagram. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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