AFP PHOTO / ATTA KENARE
AFP PHOTO / ATTA KENARE

Cidadãos iranianos culpam o próprio governo por sanções dos EUA

Maioria da população não sente a histórica hostilidade em relação aos americanos e culpa a corrupção, o sistema bancário caótico e o desemprego pela situação atual do país; muitos também acreditam que governo de Hassan Rohani negociará com Donald Trump

O Estado de S.Paulo

07 Agosto 2018 | 15h24

TEERÃ - Muitos iranianos culpam seu próprio governo pelo restabelecimento das sanções dos Estados Unidos e temem que isso possa ser o "último prego no caixão" da combalida economia do país.

Apesar de dias de protestos e greves em todo Irã, esta terça-feira se apresentou mais tranquila, mesmo com o anúncio da volta das sanções. Mas isso não diz muito sobre a profundidade do desespero sentido, especialmente entre os setores mais pobres da sociedade.

"Acho que estão destruindo minha vida. A situação econômica agora é que a classe trabalhadora tem que morrer", lamenta Ali Paphi, um operário da construção. "As sanções já estão afetando gravemente a vida das pessoas. Não tenho como comprar comida, pagar o aluguel... Ninguém se importa com os trabalhadores", queixa-se ele.

Grande parte do dano foi causado nas semanas prévias ao retorno das sanções, uma vez que a retórica agressiva do presidente americano, Donald Trump, espantou os investidores e provocou a queda da moeda local, o rial.

Tudo isso se soma aos problemas de uma corrupção profundamente arraigada, a um sistema bancário caótico e ao desemprego desenfreado depois de décadas de administração desastrosa.

"Os preços aumentam há três, ou quatro, meses e tudo o que precisamos agora é mais caro até mesmo em comparação com antes de as sanções serem impostas", comentou Yasaman, um fotógrafo de 31 anos.

Como muitas pessoas na capital Teerã, Yasaman acredita que os líderes políticos iranianos serão obrigados a voltar à mesa de negociação, como afirmou Trump. "Espero que isso aconteça logo. A maioria acha que os políticos terão de 'beber o veneno'", acrescentou.

Essa é uma expressão amplamente usada no Irã nos últimos dias, mas que foi dita há anos pelo líder revolucionário iraniano Ruhollah Khomeini, ao explicar que assinar uma trégua para pôr fim à brutal guerra de oito anos com o Iraque, em 1988, era como beber "um copo de veneno".

A maioria dos iranianos não sente a histórica hostilidade em relação aos Estados Unidos, com a qual viveu durante quatro décadas, e sua revolta agora é dirigida principalmente contra seus próprios líderes.

"Os preços estão subindo novamente, mas o motivo é a corrupção do governo, não as sanções dos EUA", protesta Ali, um decorador de 35 anos.

Como muitos, ele acredita que o presidente Hassan Rohani é uma figura impotente para melhorar as coisas. "Rohani não pode resolver os problemas. Já demonstrou várias vezes que não é ele que toma as decisões nesse país. Nossos problemas são nossos representantes e o sistema", acrescentou.

Os iranianos mais ricos e educados também perderam a esperança, mas têm a opção de abandonar o país, apesar de se tratar de uma decisão dolorosa.

Sogand, um jovem iraniano-americano, chegou ao Irã pela primeira vez há cinco anos e desfrutou do alívio das tensões internacionais que acompanharam o acordo nuclear de 2015.

Mas, nos últimos meses, está preocupado com sua dupla nacionalidade e com o fato de muitas pessoas com dois passaportes terem sido presas por espionagem. Por isso, decidiu que já é hora de ir embora do país.

"Eu me sinto envergonhado por abandonar meus amigos durante esta crise econômica. Eu me sinto culpado por ter recurso para ir embora e eles, não", explicou.

"Mas a instabilidade econômica e a eliminação de todas as perspectivas financeiras nesse país são o último prego no caixão", concluiu. / AFP

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