BEATRIZ BULLA/ESTADAO
BEATRIZ BULLA/ESTADAO

Cidade de Kenosha se torna epicentro da disputa política entre Trump e Biden

Os dois candidatos visitaram a cidade do Wisconsin após os protestos que ocorreram depois que o negro Jacob Blake foi baleado por um policial branco; republicano se mostrou defensor da lei e da ordem e democrata visitou parentes da vítima

Beatriz Bulla, enviada especial a Kenosha, EUA, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2020 | 21h45

Anayah Erven inverteu a lógica de entrevistadora e entrevistada ao saber que a reportagem do Estadão é do Brasil: “Você escolheu se mudar para os Estados Unidos? Por que morar nesse país tão injusto?”. A sensação da jovem de 16 anos é que a terra de promessas e oportunidades apresentada na convenção republicana que confirmou a candidatura de Donald Trump não é para ela. 

A quatro quarteirões de onde mora, em Kenosha, no Wisconsin, Jacob Blake, negro como ela, levou sete tiros à queima-roupa da polícia e mudou por completo a rotina da pacata cidade. “A injustiça contra nós, negros, está em toda parte dos EUA, está na minha rua”, disse Anayah.

Durante as últimas duas semanas, Kenosha ganhou as manchetes americanas e atenção mundial como um microcosmo da divisão social pela qual os Estados Unidos passam. A história da cidade é a do interior do meio-oeste americano, composto majoritariamente por brancos, palco de sucessivos casos de violência policial contra negros e politicamente rachado desde a eleição de Trump. 

Em 2014, a história de violência policial e protestos era a mesma em Ferguson, no Missouri, e, em maio deste ano, em Minneapolis, no Estado de Minnesota, quando a morte de George Floyd despertou uma onda maior de manifestações antirracismo em todo o país.

Kenosha viveu uma semana de confronto entre policiais e manifestantes, com cenas de prédios queimados, janelas quebradas, tiros e correria nas ruas, seguida de dias de silêncio forçado. Quando Donald Trump e Joe Biden visitaram a cidade na semana passada, em plena campanha eleitoral, homens da guarda nacional e da polícia local vigiavam as esquinas. Às 19 horas, o toque de recolher esvaziava as ruas.

Tapumes cobriam janelas e portas de lojas e restaurantes, numa tentativa de proteger os negócios de depredação. Para entrar nos hotéis, com portas trancadas, os hóspedes precisavam telefonar antes e se identificar. Jornalistas de vários países eram os poucos a circular pelas ruas ao anoitecer. 

A cena era completamente diferente do que a cidade de 100 mil habitantes do sul do Wisconsin, com pequenas casas térreas, amplos gramados e sem grades, estava acostumada a vivenciar. 

Pobreza.

Em Kenosha, a situação econômica é pior do que no restante do país. A renda média familiar anual na cidade é de US$ 53 mil, quase 18% menor do que a média nacional. Os negros são pouco mais de 10% da população, mas 18% dos que vivem abaixo da linha da pobreza na cidade. Em todo o país, uma média de 12% das pessoas vivem nessa situação. Menos de um quarto dos moradores de Kenosha tem diploma universitário.

Até o fim dos anos 80, a cidade era conhecida por sediar uma fábrica da Chrysler, que fechou a planta de montagem em 1988 e demitiu mais de 5 mil funcionários. Uma reportagem no jornal local de 2018 dizia que Kenosha tinha abandonado o posto de “cidade fabril” para ganhar o título de “cidade de depósitos de armazenamento”. Os salários e benefícios diminuíram.

Atrás nas pesquisas de intenção de voto, Trump explorou o tumulto em Kenosha como plataforma política. Há menos apoio aos protestos desta vez do que aos que aconteceram após a morte de Floyd. Mal avaliado pela gestão da pandemia, Trump volta seu discurso para a defesa da lei e da ordem e a acusação de que os democratas representarão o caos social. 

Antes de embarcar a Kenosha, o republicano defendeu o jovem branco que usou um fuzil AR-15 para atirar contra manifestantes – matou dois e feriu um terceiro –, e na cidade chamou os protestos antirracismo de “terrorismo doméstico”. Jornais conservadores e blogs deram especial atenção à ficha corrida de Blake, na qual consta uma ordem de prisão emitida em 6 de junho por agressão sexual de terceiro grau, invasão de propriedade e conduta desordeira. Mas não está claro se a polícia tinha conhecimento da ordem de prisão ao abordar Blake.

Racismo.

Entre os apoiadores de Trump, o discurso comum é que não há racismo na sociedade americana. “Não há racismo sistêmico. Eu mesma tenho amigos negros que também não acham que há racismo e eu votei em Obama em 2008. Não há racismo, isso é algo que os democratas dizem porque querem nos separar”, afirmou Danell Vincenti, uma das eleitoras de Trump que foi ao centro da cidade manifestar apoio ao presidente. “Jacob Blake resistiu à prisão provavelmente, tem muito mais coisa nessa história que não sabemos”, disse, ao justificar a ação policial.

Também é frequente o incômodo dos republicanos com o pedido de manifestantes para que sejam retirados recursos da polícia. Trump tem vinculado a ideia a Biden, apesar de o democrata ter dito que não apoia o pedido.

Segundo o presidente, os democratas permitem a presença de “agitadores e anarquistas” nas ruas das cidades. Dois dias após Trump agradecer aos policiais pelo trabalho em Kenosha, Biden foi à cidade para falar com os parentes de Blake.

Em jogo estão os dez delegados que Wisconsin tem no Colégio Eleitoral. Biden reconhece a energia jovem das ruas que exige a erradicação da discriminação racial, enquanto Trump ignora os apelos pelo fim do racismo e defende policiais, armas e ordem.

Em 2016, Trump ganhou a maioria dos votos do Condado de Kenosha por 255 votos de diferença de Hillary Clinton, o equivalente a 0,3 ponto porcentual. Em 2008 e 2012, o mesmo condado votou em Barack Obama com margens de 18 e 12 pontos a mais do que os candidatos republicanos. A virada apertada no meio-oeste em regiões que deram a vitória a democratas nos anos anteriores foi o componente inesperado que levou Trump à Casa Branca na última eleição. Desta vez, Biden tem 7,3 pontos a mais que Trump nas pesquisas do Estado. 

A mensagem de lei e ordem trumpista tem apelo na base fiel do republicano, mas ainda não ressoou entre independentes e moderados. Uma pesquisa do YouGov apontou que 56% dos adultos acreditam que a violência nos protestos pode piorar se Trump for reeleito e só 18% acreditam que melhorará com o republicano na Casa Branca. 

Para Karen Eckert e Maggie Dowse, nascidas em Kenosha, os atos de depredação são isolados, causados por pessoas de fora da cidade. “O vandalismo foi provocado por milicianos com armas que não podem ser confundidos com a mensagem principal do movimento Black Lives Matter”, disse Karen. As duas vizinhas se espremiam para chegar o mais próximo possível de Joe Biden quando o candidato democrata visitou a cidade na quinta-feira. 

Mary Altorfer trabalha na biblioteca pública da cidade e diz ter ficado "muito triste" com a violência, "mas nunca com medo".  "Aquele jovem que atirou nos manifestantes não é daqui, ele foi convocado por uma postagem de facebook", afirma Mary. O atirador, Kyle Rittenhouse, é do vizinho Estado de Illinois. Um grupo na rede social chamada "Guarda de Kenosha" promoveu um evento conclamando "cidadãos armados para proteger vidas e propriedades" na cidade. Mais de 2,6 mil pessoas confirmaram presença. O grupo foi fechado pelo Facebook, mas só depois da repercussão dos tiroteios a manifestantes.

A desigualdade entre brancos e negros nos EUA não é uma novidade que surgiu durante o governo Trump, mas eleitores democratas afirmam que o presidente acirrou um conflito racial já existente. “As coisas não eram assim antes de Trump ser presidente. As pessoas agora eventualmente levantam bandeiras do Exército Confederado em seus jardins. Ele trouxe o que há de pior nas pessoas”, afirmou Maggie.

Fechar feridas.

Enquanto Trump e Biden buscaram votos em Kenosha, a comunidade local trabalha para curar as feridas abertas na cidade. Lideranças de movimentos negros e jovens pintaram os tapumes que cobriam os negócios da cidade com mensagens coloridas, pedidos de igualdade racial e sinais de apoio a Kenosha.

Com a irmã, Ariana, Anayah desenhava flores nos tapumes de uma loja na rua onde Jacob Blake foi baleado. As duas participaram de protestos contra o racismo em junho após a morte de George Floyd. Na escola católica onde estudam, os colegas, brancos, diziam que elas não precisavam protestar, pois nunca aconteceria algo semelhante em Kenosha.

“Quando meus amigos ou os políticos tentam justificar a ação dos policiais eu fico enojada. Será que é tão difícil reconhecer que há um problema com nossa polícia? E que são nossas vidas que estão em risco?”, afirma Anayah. 

Os parentes de Jacob Blake têm sido uma voz importante na tentativa de unificação da comunidade local. No dia da visita de Trump à cidade, quando os moradores temiam distúrbios, a família organizou um encontro de manifestantes na esquina onde ele foi baleado. Em vez de saírem em marcha para o centro da cidade, onde o ambiente era mais tenso, os presentes fizeram uma confraternização com hambúrguer, música, crianças brincando, teste de covid-19, registro de eleitores e coleta de mantimentos para vizinhos da região. Justin Blake, tio de Jacob, foi um dos articuladores do evento em caráter pacífico.

"Queremos justiça para Jacob, queremos o policial indiciado e acusado, para a nossa vida seguir. Estamos felizes que Jacob está vivo e sua vida é preciosa”, disse Justin. Blake sobreviveu, mas está paralisado da cintura para baixo.

Na manhã seguinte à “festa” organizada pelos Blakes, um homem negro, que aparentava ter pouco mais de 50 anos, sentava na varanda de uma casa na mesma esquina. Em silêncio, ele mantinha o olhar vago. “Eu não posso falar sobre o que aconteceu. Porque falar sobre isso me faz viver tudo de novo e simplesmente não consigo mais. Esse país precisa se curar”, disse, sem dar seu nome.

Quase 15 dias após os tiros contra Blake, alguns tapumes começavam a ser retirados e Kenosha voltava a uma vida normal, longe dos candidatos presidenciais e dos holofotes. Para os jovens da região, no entanto, voltar ao normal não será suficiente: “Os políticos vêm aqui e olham a cidade pela janela. Passam. Nós vivemos isso”, diz Anayah.


 

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