AP Photo/Ahn Young-joon)
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Cidade do atirador de Orlando vive traumas do extremismo

Homem-bomba da Al-Qaeda e famílias de Omar Mateen e do terrorista de Oklahoma Timothy McVeigh moraram em Fort Pierce

Cláudia Trevisan, ENVIADA ESPECIAL / FORT PIERCE, EUA, O Estado de S. Paulo

15 Junho 2016 | 08h25

Com 44 mil habitantes, Fort Pierce é uma típica cidade do sul dos EUA, na qual igrejas evangélicas são mais presentes na paisagem urbana do que bancos, McDonald’s ou shopping centers. No domingo, seu nome passou a ser associado ao extremismo e à intolerância, depois que o morador Omar Mateen dirigiu por duas horas até Orlando, entrou no clube gay Pulse e matou 49 pessoas a tiros. 

Essa não foi a primeira vez que Fort Pierce viu o radicalismo de perto. Em 2014, Moner Mohammad Abu-Salha partiu da cidade em direção à Síria, onde se uniu à Al-Qaeda e se transformou no primeiro americano a morrer como homem-bomba.

Mas os que vivem em Fort Pierce há muitos anos se lembram de outro caso de extremismo que tocou a cidade, associado não ao islamismo, mas aos defensores da supremacia branca. Mildred Frazer morava na cidade em 1995, quando seu filho, Timothy McVeigh, explodiu um edifício governamental em Oklahoma, matando 168 pessoas e deixando 680 feridas. 

Nos dias seguintes ao atentado, dezenas de jornalistas permaneceram em Fort Pierce, na expectativa de entrevistar a mãe do criminoso. 

Os moradores tentam agora se recuperar do massacre de Orlando, que dominou o noticiário global e levou outro exército de repórteres à cidade. “É uma pena que Fort Pierce tenha notoriedade por uma coisa tão terrível”, disse Barbara, dona de uma loja de móveis que fica a cerca de 200 metros da mesquita que Mateen frequentava e pediu para ser identificada apenas pelo primeiro nome.

A pequena comunidade muçulmana local também tenta superar o trauma, enquanto vive o temor de ser estigmatizada. No centro islâmico que o atirador frequentava de três a quatro vezes por semana, muitos se recusaram a ser entrevistados. 

O paquistanês Aziz Chagani foi o único que concordou em falar a jornalistas na tarde de ontem. “Eu o vi várias vezes na mesquita. Algumas vezes, ele vinha com o filho, outras sozinho. Era sério, não falava muito, mas não parecia violento.” Mateen esteve pela última vez na mesquita na sexta-feira.

Chagani afirmou não temer a retórica anti-islâmica de Donald Trump, candidato republicano à presidência. “Estou vivendo a vida normalmente aqui há 30 anos. Veio o 11 de Setembro, agora isso. As coisas vêm e vão. Esse é um país pacífico. Uma ou duas maçãs podres não vão mudar isso.”

Mateen foi investigado pelo FBI em 2014 por suspeita de ligação com Abu-Salha, que esteve na mesma mesquita antes de viajar para a Síria. Chagani lembra de tê-lo visto, mas afirmou que o extremista não era de sua comunidade, mas sim da mesquita de Little Beach, a 45 minutos de distância. Perguntado sobre o que poderia ter radicalizado jovens de Fort Pierce, Chagani preferiu não opinar.

Depois do ataque cometido por McVeigh, sua mãe escreveu um artigo para o jornal Fort Pierce Tribune refletindo sobre os atos do filho. “Parece que ele poderia ser o filho de qualquer um de nós, certo? Pessoas que vivem em uma casa de vidro não deveriam atirar pedras. Isso poderia ter ocorrido na sua família da mesma maneira que ocorreu nessa.”


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