Cidade do Mali tenta curar feridas

A histórica Timbuctu ainda busca superar os horrores do período em que radicais fortemente armados impuseram a lei islâmica

LYDIA POLGREEN, TIMBUCTU, MALI, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

17 de fevereiro de 2013 | 02h06

Quando os militantes islamistas chegaram à cidade, o doutor Ibrahim Maiga fez um acordo com eles. Faria tudo o que eles pedissem - cuidaria dos feridos e até trataria das mulheres espancadas por não cobrirem a cabeça e o rosto. Em troca, eles permitiriam que o médico mantivesse o hospital funcionando.

Um dia, em outubro, os militantes chegaram com instruções inusitadas. Ele teria de levar uma equipe e uma ambulância para uma praça perto das dunas. Lá, debaixo do sol inclemente, diante de uma multidão pasma, os islamistas realizaram o que definiram como a única sentença justa para o roubo: cortar a mão do ladrão. Um dos rebeldes serrava o pulso de um jovem aterrorizado, que gritava de dor amarrado a uma cadeira, enquanto Maiga, veterano de cenas terríveis em prontos socorros, olhava para o outro lado.

"Fiquei chocado", afirmou. "Mas não podia fazer nada. Minha função é tratar pessoas. O que eu poderia fazer?" Depois de permanecer dez meses sob ocupação dos combatentes islamistas, muitos ligados à Al-Qaeda no Magreb Islâmico (AQMI), a população de Timbuctu contou como sobreviveu à subversão de sua vida tranquila.

"Nossa vida virou de cabeça para baixo", disse Maiga. "Eles tinham armas, por isso fazíamos tudo o que eles pediam. Era inútil resistir". Há poucos dias, tropas francesas entraram em Timbuctu. Intensos ataques aéreos haviam afugentado os militantes, numa campanha surpreendentemente rápida pela retomada do norte do Mali, que os islamistas mantiveram em seu poder durante meses.

Na quinta-feira, o ministro da Defesa da França, Jean-Yves Le Drian, disse que a intervenção foi "bem-sucedida" e atingiu o objetivo pretendido. Embora os militantes islamistas tenham se retirado para o deserto, ninguém se ilude achando que a ameaça acabou. Washington elogiou a rapidez da operação, mas também lembrou que é preciso uma campanha longa para desalojar os radicais de seus redutos - e não está claro quem realizará essa tarefa.

Em Timbuctu, a vida não voltou ao normal. As lojas de comerciantes árabes foram pilhadas. Alguns habitantes fugiram, antevendo uma luta étnica que pode corroer o Mali por muitos anos. O fornecimento de eletricidade e água só funciona algumas horas por dia. A rede de celulares continua inoperante.

Muitos dos que partiram não têm como voltar. Remota, a cidade está isolada. As rotas empoeiradas e os rios que passam pela região serpenteiam um território hostil de matagais, que podem dar refúgio aos combatentes desaparecidos.

Os que ficaram contam como sobreviveram à ocupação: escondendo manuscritos e amuletos proibidos pelos islamistas, enterrando caixas de cerveja no deserto, vendo túmulos de santos serem reduzidos a pó, silenciando os rádios que transmitiam música proibida. "Eles procuraram tirar tudo o que fazia de Timbuctu, Timbuctu", disse Mahalmudu Tandina, pregador islâmico cujos ancestrais vieram do Marrocos, no século 13. "Quase conseguiram."

A ocupação da cidade, que por muitos séculos foi um centro de estudos islâmicos, foi a mais recente de uma longa lista histórica de conquistas - por nações árabes, pelos impérios Songhai e Masina, e pela França. Mais uma vez, poderosas forças globais atuavam na cidade enfraquecida: a rede de extremistas islâmicos, Exércitos da França, da África e, até certo ponto, dos EUA, que se encarregaram de transportar e abastecer tropas e aviões franceses.

No meio tempo, os habitantes da cidade, cujos ancestrais suportaram tanta devastação na maior parte do milênio, adaptaram-se da melhor maneira possível. No dia 1.º de abril, quando os rebeldes chegaram, Tandina acabava de regressar da primeira oração do dia, antes do amanhecer. Preparou seu chá agridoce e ficou ouvindo uma rádio francesa. As notícias eram ruins: Gao, a cidade principal do norte do Mali, caíra nas mãos dos rebeldes tuaregues, os combatentes nômades que lutavam há décadas contra o Estado do Mali.

Sua cidade natal seria o próximo alvo. Quando os tiros começaram a pipocar na Praça da Independência, bem atrás da sua casa, ele soube que os últimos conquistadores de Timbuctu acabavam de chegar. "Os bárbaros estavam à nossa porta", disse. "E não era a primeira vez."

Os tuaregues assumiram o controle da cidade e, por dois dias, saquearam seus mercados, violentaram mulheres, roubaram carros e mataram quem tentasse impedi-los. "Então, veio o homem da grande barba branca", acrescentou Tandina. Com uma barriga enorme, vestindo uma túnica azul, o líder do Ansar Dine, grupo islamista ligado à AQMI, chegou com vários caminhões carregados de combatentes. Os novos rebeldes convocaram a população numa praça pública e fizeram um anúncio. "Eles disseram: 'Somos muçulmanos. Viemos impor a sharia'."

Inicialmente, os habitantes ficaram aliviados. Começando uma campanha para conquistar o povo, o grupo colocou os nacionalistas tuaregues para guarnecer a cidade, acabando com estupros e pilhagens. Eles não cobravam pela eletricidade nem impostos. O comércio continuou mais ou menos como sempre.

Em seguida, chegou de Gao um misterioso grupo de visitantes fortemente armados em picapes. "Disseram que tinham vindo estabelecer uma república islâmica", disse Tandina. Começou com as mulheres. Se elas mostrassem o rosto no mercado, seriam chicoteadas. Os homens da cidade, furiosos com os ataques a suas mulheres, organizaram uma marcha até o quartel da polícia islamista, que se instalara numa agência bancária.

Os islamistas receberam os manifestantes com tiros para o ar. Muitos fugiram, mas um pequeno grupo, que incluía Tandina, insistiu em ser ouvido. Um jovem de barba saiu para se encontrar com eles. Tandina reconheceu o policial. Era Hassan Ag, que antes dos combates era técnico de laboratório no hospital local.

"Quando o conheci, ele não usava barba e se vestia como um burocrata", lembra. Agora, usava o uniforme rebelde: uma túnica, calças largas presas acima do tornozelo, imitando o profeta Maomé, e carregava uma metralhadora no ombro. "Disse a ele que nossas mulheres estavam sendo maltratadas." Ag não se comoveu. "Esta é a lei islâmica", respondeu. "Não há nada que eu possa fazer. E o pior ainda está por vir."

E veio. Eles começaram a destruir os túmulos dos santos muçulmanos. Armados de picaretas e marretas, reduziram a escombros o túmulo de Sidi Mahmoud, santo que protegia a cidade de invasores. A veneração foi considerada anti-islâmica pela austera versão do credo proclamado pelos ocupantes. Tandina tentou usar sua educação corânica, acumulada durante décadas, para argumentar e citou versículos que falam do respeito pelos túmulos. Eles não quiseram saber.

Logo, as amputações começaram. Em seguida, as execuções. Novamente, ele tentou intervir. Foi ao tribunal islâmico com livros de direito debaixo do braço. "O Islã era o que eles diziam que era", afirmou. "Não respeitaram nada, só seus desejos."

Por centenas de anos, Timbuctu foi um dos mais importantes centros de cultura islâmica do mundo. A cidade tem dezenas de mesquitas e é famosa por seus antigos manuscritos. Muitas famílias têm uma longa tradição de sabedoria islâmica, transmitida de pai para filho. Por isso, muitos ficaram apavorados quando os islamistas chamaram a população para ensinar a prática correta da religião.

"O que eles chamam Islã não é o que nós sabemos que é o Islã", disse Dramane Cissé, imã de 78 anos de uma das mais antigas mesquitas da cidade. "Eles são arrogantes que gostam de intimidar e usam a religião para disfarçar seus verdadeiros desejos."

Mas, como muitos muçulmanos do lugar, ele escondeu seus amuletos, terços de oração e outros itens religiosos proibidos. Em seu coração, sua fé continuou a mesma. "Nasci na minha religião e morrerei nela", disse Cissé. "Sei em que acredito e nada poderá mudar isso."

O compromisso que Maiga assumiu para manter o hospital funcionando continua a assombrá-lo. Depois que a mão do jovem foi cortada, os islamistas a ergueram e gritaram: "Deus é grande". O médico colocou o jovem na ambulância e correu para a sala de cirurgia para cauterizar a ferida. "Fiz o que tinha de fazer", disse. "Que Deus nos ajude." / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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