Daniel Berehulak/The New York Times
Daniel Berehulak/The New York Times

Cidade do México tem 3 vezes mais mortes por covid-19 do que diz governo 

Governo relata 700 mortes na capital, mas profissionais de saúde afirmam que há 2,5 mil óbitos pelo coronavírus e por doenças indiretamente ligadas a ele; especialistas criticam presidente López Obrador por negligência no combate à pandemia

Redação, O Estado de S.Paulo

09 de maio de 2020 | 04h00

CIDADE DO MÉXICO  - Autoridades da Cidade do México contaram mais de 2,5 mil mortes pelo novo coronavírus e por doenças respiratórias, provavelmente ligadas à covid-19, segundo dados obtidos pelo New York Times publicados ontem. O governo federal, porém, informou apenas 700 óbitos na região metropolitana da capital e está demitindo funcionários que já contabilizaram três vezes mais óbitos do que o número oficial.

A tensão chegou ao ápice na última semana, quando a Cidade do México alertou reiteradamente o governo federal a respeito das mortes, na esperança de que a população saiba o verdadeiro custo da pandemia em vidas humanas na maior cidade do país. Mas nada aconteceu. 

Profissionais de saúde afirmam que a realidade da epidemia está sendo ocultada. Em alguns hospitais, os pacientes permanecem dias deitados no chão. Idosos são acomodados em cadeiras de metal porque não há leitos, enquanto vários doentes são mandados para centros de saúde menos equipados. Muitos morrem no caminho, segundo vários profissionais. 

“É como se nós, médicos, vivêssemos em dois mundos diferentes”, explicou Giovanna Avila, que trabalha no Hospital Belisario Domínguez. “Um no interior do hospital, com os pacientes morrendo o tempo todo, e a outra quando saímos às ruas e vemos as pessoas circulando, sem terem ideia do que está acontecendo.”

Em todo o país, o governo federal divulgou cerca de 3 mil mortes em um país de 120 milhões de habitantes. Mas os especialistas afirmam que o México tem apenas uma noção mínima da escala real da epidemia, porque está testando poucas pessoas. Menos de um em cada mil mexicanos é testado – bem menos do que os 23 testes por mil habitantes registrados por países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Segundo o governo, o México está em uma situação melhor do que muitos países. “Achatamos a curva”, disse nesta semana o ministro da Saúde, Hugo Lopez-Gatell. Mas até agora ninguém explicou a discrepância de dados na capital – incluindo os pedidos de entrevista feitos pelo Times

José Narro Robles, ministro da Saúde anterior, acusou Lopez-Gatell de mentir à população. Alguns governadores chegaram a conclusões semelhantes. Normalmente, a contagem oficial não representa a realidade da pandemia. Mas, na Cidade do México, parece uma ação deliberada. 

A desconfiança surgiu no mês passado, quando a prefeita da cidade, Claudia Sheinbaum, começou a suspeitar que os dados federais estavam errados, de acordo com três pessoas a par do assunto. Ela já havia instruído sua equipe a ligar para todos os hospitais públicos para perguntar a respeito das mortes confirmadas. Na última semana, Claudia pôde confirmar que o número de óbitos era três vezes maior que informado.

A prefeita não quis comentar o caso, para não constranger o presidente, Andrés Manuel López Obrador, um aliado político. A prefeitura e o governo federal continuam trabalhando em conjunto em diversas frentes, até mesmo na aquisição de respiradores. 

Os números, porém, são cruéis. “É chocante”, afirmou Fernando Alarid-Escudero, especialista em saúde pública que criou um modelo para traçar a curva da epidemia no México. “Se for este o caso, não estamos compreendendo o quadro. Estamos subestimando a magnitude da epidemia.”

Ao que tudo indica, o México está ocultando as mortes. Dados oficiais, na quinta-feira, mostravam apenas 245 óbitos suspeitos em todo o país. O hiato de informação deixa muitos mexicanos com a sensação de que o governo ignora o surto angustiante que aflige os EUA, onde 1,2 milhão de pessoas foram infectadas e mais de 70 mil morreram.

O modelo que o país estaria usando supõe que apenas 5% da população infectada apresenta sintomas, e apenas 5% destes pacientes irão para o hospital, segundo documentos obtidos pelo Times. “Este modelo está errado”, disse Laurie Ann Ximenez-Fyvie, de Harvard, atualmente na Universidade Nacional Autônoma do México. Segundo ela, casos sintomáticos e graves são mais numerosos. “Há amplo consenso a este respeito.”

Vários especialistas também questionam a confiança do governo de que a epidemia passará em breve. O modelo oficial mostra um aumento das infecções, seguido de um rápido declínio. Mas em nenhum outro país do mundo foi registrado um declínio tão rápido depois do pico. “A curva tem uma cauda longa e o número de mortes não cairá tão cedo para zero”, disse Nilanjan Chaterjee, professor de bioestatística da Universidade Johns Hopkins. “O gráfico que eles estão usando não coincide com o formato da curva de outros países.” / NYT, TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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