AFP | ERIC FEFERBERG
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Cidade é reduto de violência a 5 km de Paris

Com cerca de 1,5 milhão de habitantes, região de Saint-Denis é alvo de traficantes de drogas e sofre com assaltos

Daniela Fernandes, ESPECIAL PARA O ESTADO / SEINE-SAINT-DENIS, FRANÇA, O Estado de S.Paulo

18 Novembro 2015 | 21h14

“Em Saint-Denis, me sinto como no meu bairro na Argélia. Aqui, todo mundo se conhece”, diz o argelino Kader Souakri, desempregado, que mora há três anos na cidade onde a polícia francesa realizou ontem a operação policial para prender suspeitos de ligação com os atentados em Paris na sexta-feira.

Mas Saint-Denis, apenas cinco quilômetros ao norte de Paris – famosa por sua basílica de estilo gótico onde estão enterrados reis da França e pelo Stade de France – está longe de ser uma cidade pacata. Moradores ouvidos pelo Estado descrevem uma localidade que as autoridades “deixaram apodrecer”, dominada pela delinquência e pelo tráfico de drogas.

A maioria da população desse subúrbio de 110 mil habitantes é de imigrantes ou franceses de origem estrangeira, principalmente de países como Argélia, Marrocos e Tunísia. A taxa de desemprego, de 20% a 22%, segundo autoridades locais, é o dobro da média nacional.

A situação não é diferente em outras cidades do mesmo distrito administrativo, chamado Seine-Saint-Denis, mais conhecido na França como “nove três”. A referência ao código postal passou a ser vista, na prática, como algo pejorativo, um endereço que faz muitos franceses torcerem o nariz. E também sinônimo de exclusão social. Foi na Seine-Saint-Denis, com mais de 1,5 milhão de habitantes, que começou a onda de violência nas periferias do país, em 2005.

“As pessoas aqui estão acostumadas com o tráfico de drogas. Se quisermos continuar vivos, não vimos nem ouvimos nada e também não sabemos de nada”, diz uma moradora que preferiu não se identificar, nascida na Costa do Marfim.

Segundo ela, os traficantes usam crianças de 8 ou 10 anos para vigiar a eventual chegada da polícia. “Eu tranco a porta de casa à noite e escondo a chave para evitar que meu filho de 11 anos saia e vá perambular pelas ruas”, conta.

Ao mesmo tempo, moradores afirmam que há muitas ações sociais voltadas para pessoas de baixa renda e também iniciativas culturais – entre elas, a Cidade do Cinema, criada pelo diretor Luc Besson. Mas isso não impediu, na avaliação deles, o aumento da violência e da criminalidade.

Crime. As sete cidades mais violentas da França se concentram todas no distrito da Seine-Saint-Denis, o chamado “93”. Saint-Denis, onde ocorreu a operação policial para prender supostos terroristas, lidera a lista.

“Muitos aqui já foram assaltados”, conta a francesa Marie-Christine Daillet, 63 anos e desempregada, se referindo ao grupo com quem estava na rua. “Não uso mais bolsa ao sair, não carrego mais nada”, diz ela.

Christine ficou com o braço engessado por quatro meses após sofrer várias fraturas em um assalto em Saint-Denis, onde mora há cinco anos, embora frequente a cidade há décadas porque seus pais, de origem francesa, minoria na população, moram ali há 40 anos. “Antes as pessoas viviam em harmonia, mas a situação se deteriorou muito nos últimos 15 anos.”

Agora, diz ela, com a descoberta de que supostos terroristas estavam escondidos em Saint-Denis, a situação vai se agravar. “A cidade já tinha má reputação. Isso vai piorar ainda mais sua imagem e seus moradores correm o risco de sofrer mais preconceito”, afirma Christine, que tem planos de se mudar dali por sentir medo.

“Eu espero que o presidente François Hollande ouça os gritos dos habitantes que pedem mais policiais para a cidade”, disse ao Estado o vice-prefeito de Saint-Denis, Bally Bagayoko, francês de origem maliana. “Com simplesmente dois mil policiais já daria para se equiparar a outras cidades. Também precisamos de reforço no Stade de França”, afirmou o político.

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