Cidade fiel a ditador fica deserta

As portas das casas e dos carros atravessados no meio das ruas foram deixadas abertas. Os moradores de Tawarga, cidade de 50 mil habitantes, fugiram com a roupa do corpo. Muitos apartamentos foram incendiados. Antes habitada quase exclusivamente por negros, descendentes de escravos que se instalaram ali depois do naufrágio de um navio negreiro, Tawarga é agora uma cidade fantasma.

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

04 Setembro 2011 | 00h00

No começo da guerra civil, há seis meses, Kadafi prometeu aos moradores de Tawarga que eles poderiam apossar-se de tudo o que quisessem em Misrata, se o ajudassem a debelar a rebelião na cidade de 500 mil habitantes, situada a 50 km dali. "Os tawargis foram os que nos atacaram mais duramente", conta Salah Fortia, de 33 anos, funcionário do Ministério da Saúde. O quarto de Fortia, cuja casa fica numa rua atrás da Avenida Trípoli, cenário das sangrentas batalhas por Misrata, foi destruído por um foguete Grad, disparado segundo ele pelos tawargis, que cercavam a cidade.

"Não entendo por que os tawargis gostavam de Kadafi", disse Ahmed Essa, estudante de engenharia de 21 anos, cuja casa foi completamente destruída pelos foguetes. "Eles não tinham nada, eram pobres."

Com a licença de Kadafi, os tawargis passaram a confiscar o que podiam em Misrata. Nas prósperas fazendas ao redor da cidade, contam os moradores, os tawargis roubaram tantas ovelhas que vendiam o quilo da carne por apenas 2 dinares (US$ 1,50), quando o preço normal é dez vezes isso. Destruíam com artilharia antiaérea os carros mais sofisticados, protegidos contra ligação direta, que eles não conseguiam roubar.

Além dos disparos de foguetes, parte dos franco-atiradores que aterrorizaram Misrata durante meses era tawargi, afirmam os moradores. No dia 15, no começo da grande ofensiva rebelde, os combatentes de Misrata livraram a cidade do cerco das forças de Kadafi e partiram para Tawarga, causando a fuga em massa da cidade. No total, nesses seis meses de guerra, 1.300 revolucionários foram mortos em Misrata, e cerca de 10 mil homens leais a Kadafi, segundo os cálculos dos moradores. Não se sabe ao certo quantos tawargis foram mortos. Mas os combatentes do km 60, o posto de controle rebelde próximo a Tawarga, têm a sua contabilidade individual.

"Matei dois", diz Ibrahim Shaush, de 22 anos. "Posso dar certeza de três", garante Ibrahim Abarweis, de 18 anos. "Matei quatro", conta Ali Abarbed, de 19 anos. Os três são estudantes e não tinham experiência militar antes. Operam baterias antiaéreas, segundo eles "mais fáceis" de usar do que os fuzis Kalashnikov, embora cada um tenha o seu. "Se não os matássemos, eles nos matariam. Os tawargis pensam que são líbios, mas não são. São africanos."

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.