AP Photo/Dieu Nalio Chery
AP Photo/Dieu Nalio Chery

Cidade no Haiti se reerguia. Aí, chegou o furacão ...

Jérémie, no sul do país, finalmente sonhava com a prosperidade, até que o Matthew a despertou 

Azam Ahmed / The New York Times, O Estado de S. Paulo

11 de outubro de 2016 | 05h00

As coisas estavam melhorando em Jérémie, cidade litorânea na ponta da península no sul do Haiti, país cuja infra-estrutura foi seriamente abalada pelo terremoto de 2010. Recentemente, a cidade recebera a primeira estrada decente ligando-a ao restante do país. 

O serviço de telefonia celular tinha finalmente chegado, possibilitando que agricultores e negociantes prosperassem. Jérémie chegava rapidamente ao século 21, sonhando com agricultura avançada e turismo em uma das poucas reservas naturais do país.

Mas o furacão Matthew fez o tempo voltar. A deslumbrante floresta e a vegetação foram reduzidas a um pântano de água salgada. As estradas estão bloqueadas por detritos, os lares são escombros de pedra e chapas de zinco arrancadas dos telhados. Os ambiciosos planos de Jérémie foram arrasados.

“Em vez de avançar, temos que recomeçar”, disse Marie Roselore Auborg, ministra do Comércio e Indústria da província de Grand Anse, da qual Jérémie é a capital. “Essa tempestade jogou por terra todo o nosso potencial de crescimento e retomada da economia.”

O impacto do furacão Matthew no Haiti é difícil de calcular: o número de mortos é estimado em mais de 1.000. Há pessoas ainda isoladas e casos de cólera informados na semana que se seguiu aos ventos de 230 km/h que varreram o país. 

Em Jérémie, depois de décadas de isolamento e subdesenvolvimento, a história mais recente era relativamente positiva, trazendo novos hotéis e uma robusta colheita de café. Mas, como ocorre com frequência, sempre que o Haiti tenta se reerguer, surge algo para derrubar o país, incluindo (talvez especialmente) as forças da natureza.

“Em 2010, antes do terremoto, tivemos crescimento de 5,7%”, disse Jude Célestin, candidato à presidência que visitou no domingo a área devastada. “Gente de Porto Príncipe tinha começado a investir aqui.”

Enquanto uma multidão gritava ao fundo, tentando se aproximar do candidato, Célestin olhava ao redor para os lares arrancados de seus alicerces e os montes de entulho e lixo que chegavam à altura dos ombros. “E agora, isso”, disse ele, balançando a cabeça. “É assim que as coisas são.”

A água fétida se acumulava perto da única entrada e saída da cidade, e praticamente tudo nas colinas fustigadas pelo vento tinha sido arrasado. Reunir os mortos em Jérémie se tornou um cruel passatempo. A contagem de corpos na província estava em 191 no domingo de acordo com o governo, mas moradores da região falam em algo mais próximo de 450.

Novos surtos de cólera foram informados em regiões do sul que continuavam inacessíveis pelas estradas, e falava-se em dúzias de vítimas caminhando até hospitais em busca de ajuda. O cheiro de fezes e água podre da tempestade enchia as ruas mais próximas da praia. 

O professor Gary Guerrier, de 36 anos, viu a tempestade arrancar o telhado metálico de sua casa, deixando ele, a mulher e a bebê de uma semana expostos à intempérie. Depois de ser empurrado de volta duas vezes pelos ventos, ele finalmente envolveu a menina em lençóis para protegê-la na jornada até a casa de um vizinho. “Ainda estou em choque”, disse Guerrier. “Temos sorte de não ter perdido ninguém. Mas, em se tratando de bens materiais, perdi tudo.”

Lares em Beaumont, cidade nos arredores de Jérémie, tiveram destino ainda pior. Construídas com pedras brancas e barro, elas não resistiram à força dos ventos e da chuva, e poucas seguiam de pé em meio aos pés de café e laranjeiras derrubados pela passagem da tempestade. Os moradores de comunidades em pontos mais altos das colinas ainda estavam procurando parentes, enquanto as comunidades no pé da colina já tinham enterrado seus mortos.

“Encontramos meu pai na casa dele, com várias fraturas”, disse Desir Luckner, de 49 anos, apontando para o que restou da casa – os alicerces de concreto com uma viga de madeira ainda no lugar. “Nós o carregamos colina abaixo em busca de ajuda, mas ele morreu no caminho.”

Apesar de todas as vidas destruídas, Jerémie estava agitada no domingo. Vendedores abriam caminho entre os escombros na beira da estrada, oferecendo pães e cebolas caras magicamente obtidas de algum lugar. Alguns estabelecimentos estavam abertos. Claudia St. Louis abriu sua pequena padaria, vendendo comparettes, uma variedade local de pão doce, a quem pudesse pagar.

“Perdi meu lar, mas preciso continuar trabalhando, pois é meu sustento”, disse ela, afastando abelhas cuja colmeia fora esmagada na tempestade. “Agora há menos compradores para meus pães, mas não há nada que se possa fazer.”

Claudia disse que seus negócios iam bem antes da tempestade, com aumento de até 50% nas vendas no ano passado, e ela planejava expandir a oferta para outros tipos de salgados e, quem sabe, abrir também uma loja de cosméticos. “Não posso fazer isso agora”, disse.

Para o presidente da câmara de comércio de Grand Anse, Monode Joseph, a situação será ruim por algum tempo. Além das lojas, hotéis e pequenos restaurantes, os agricultores da região foram bastante afetados. 

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