REUTERS/Sue-Lin Wong
REUTERS/Sue-Lin Wong

Cidade-símbolo de Deng paga preço do progresso

Operários de Shenzhen buscam compensações após adoecerem trabalhando no seu boom econômico 

O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2018 | 05h00

SHENZHEN, CHINA - Ao celebrar 40 anos da política econômica que a transformou na segunda maior economia do mundo, a China paga um alto preço humano por seu desenvolvimento, que tirou milhões da pobreza, mas sacrificou tantos outros em uma crise de saúde que o governo tenta sufocar. O aniversário será lembrado pelo presidente Xi Jinping em um discurso no Grande Salão do Povo nesta noite. 

Cerca de 6 milhões de chineses sofrem de ou já morreram de pneumoconiose, série de problemas nos pulmões que inclui, entre outras, a silicose, doença causada pela inalação de sílica, encontrado em minerais, areias, entre outros. O número é da ONG Love Save Pneumoconiosis, de Pequim, que advoga por esses trabalhadores. 

Centenas deles vindos de três condados na Província de Hunan têm protestado e pedido compensação de Shenzhen – cidade símbolo das reformas transformadoras lançadas pela China há 40 anos, onde antigas vilas de pescadores se transformaram em um centro global de manufatura.

“Era comum usarmos a mesma máscara por dez dias antes de ganhar uma nova”, relatou Wang Zhaohong, que trabalhava para uma empresa de demolição. Frágil e lutando para respirar, o homem de 50 anos conclui que seu antigo trabalho acabará por matá-lo. 

Sem equipamento de segurança adequado, ele e seus colegas inalaram tanta poeira de construção durante o boom de Shenzhen que eles contraíram silicose. Seu caso é grave e os médicos lhe deram até o ano-novo chinês, 5 de fevereiro. 

Quase ninguém assinava contrato de trabalho, o que torna quase impossível para esses trabalhadores buscarem compensações. Dependendo da gravidade da doença, o governo de Shenzhen oferece pagamentos que não ultrapassam 220 iuanes (US$ 32 mil), de acordo com Gu Fuxiang, um dos representantes desses empregados. 

Durante um protesto na prefeitura de Shenzhen em novembro, eles foram atacados por forças de segurança. “Trocamos nossas vidas por desenvolvimento. O governo não liga se estamos doentes, se morremos”, disse Gu, que tem uma versão menos severa de silicose. Autoridades locais não se pronunciaram. 

O problema de saúde dos trabalhadores não afeta só a China, mas o ritmo do boom de construção no país causou um número sem precedentes de mortes em 40 anos. 

Nenhuma cidade na história teve um crescimento tão rápido quanto Shenzhen, de 12,5 milhões de habitantes, cuja economia ultrapassou sua vizinha Hong Kong pela primeira vez no ano passado. 

Apesar do grande sucesso da cidade, esses trabalhadores tiveram de pegar empréstimos de banco ou de amigos para cobrir as despesas médicas, como foi o caso de Wang. 

Censura

Os trabalhadores disseram que Pequim os ameaçou se eles ou qualquer pessoa contassem sua história. Em meados de novembro, autoridades proibiram sites de relatar ou publicar histórias relacionadas aos trabalhadores de Hunan que sofrem de silicose, de acordo com o China Digital Times, que monitora a censura na China. 

Mas Wang disse estar mais preocupado com a grande dívida que ele está deixando para sua família. / REUTERS 

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