Tyler Hicks/The New York Times
Tyler Hicks/The New York Times

Cidade síria de Kobani destruída pelo EI se esforça para se reconstruir

Pilhas de entulhos se aglomeram nas ruas e em frente a escolas e hospitais destruídos pelos conflitos em uma região que foi abandonada por muitos moradores

O Estado de S. Paulo

24 de novembro de 2015 | 09h47

KOBANI, SÍRIA - Da porta de sua casa de blocos, Faiza Mohammed se lembra de como sua vizinhança costumava ser e lamenta o que ela é hoje. A escola de seus filhos tem buracos de balas nas paredes e sacos de areia nas janelas. As lojas onde ela comprava mantimentos hoje são somente uma pilha de entulhos. Os vizinhos e parentes que viviam nas proximidades e se ajudavam foram todos embora.

Com a exceção de um casal de idosos na casa ao lado, todos se foram, diz Faiza. A casa dela e dos vizinhos foram as duas únicas que restaram na rua, verdadeiras ilhas em um mar de destruição.

“Temos pessoas ao lado, então estamos bem”, diz Faiza, que ficou viúva antes do começo da guerra civil na Síria. “Mas à noite nós trancamos a porta e não abrimos para ninguém, porque há medo no mundo.”

Uma batalha feroz enfrentada por soldados curdos na tentativa de afastar uma invasão do Estado Islâmico no ano passado transformou Kobani, cidade na fronteira da Síria com a Turquia. Mas no momento em que os curdos prevaleceram em janeiro, apoiados por centenas de ataques aéreos americanos - enaltecidos como um modelo de cooperação internacional -, parecia que a cidade havia sido atingida por um terremoto.

Os desafios que ela enfrenta hoje são enormes. Diversos tratores recolhem o que sobrou dos prédios destruídos nas ruas e frotas de caminhões transportam quilos de entulho. Ao mesmo tempo, lojas reabrem e vendem telefones celulares, cigarros e frango grelhado, e centenas de moradores desalojados voltam aos poucos, segundo fontes oficiais. Muitos cobriram as janelas quebradas com plásticos e taparam os buracos nas paredes com tijolos para evitar a entrada do vento até que os reparos definitivos possam ser feitos.

“A cidade se tornou relativamente adequada para se viver de novo”, diz Idris Nassan, chefe de relações exteriores da nova administração autônoma. Quando a guerra terminou, 80% dos prédios foram danificados e a infraestrutura sofreu um colapso, explica. A cidade havia cortado qualquer ligação com o governo central de Damasco, então os líderes locais formados pelo Conselho de Reconstrução de Kobani solicitaram ajuda e supervisionaram a reconstrução.

As primeiras tarefas foram restabelecer o fornecimento de água e redes de esgoto, lidar com o problema dos explosivos não detonados e enterrar os corpos de mais de 100 pessoas que foram encontrados em meio aos escombros, afirma Nassan.

Escolas e hospitais da região, assim como gabinetes do governo, padarias e salões de festas, estavam em grande parte destruídos. A quantidade de perdas registradas na cidade assombra muitos moradores.

Toda manhã, Muslim Mohammed, de 56 anos, volta para sua casa destruída, se senta sozinho na área externa, bebe chá e pensa. Os apartamentos em volta, todos destruídos e vazios, agora servem de ninhos para pássaros. “Não gosto de ver muitas pessoas”, diz Mohammed. “É psicologicamente desgastante.”

Ele e sua esposa foram para a Turquia quando o conflito começou, mas três de seus filhos se uniram à principal milícia curda local.

Ali, de 17 anos, morreu na batalha, e Mohammed, de 29 anos, foi morto durante a incursão do Estado Islâmico em junho, conta o pai. Então, ele enviou Ahmed, de 15 anos, em uma balsa para a Europa, na esperança de que a distância possa mantê-lo vivo.

Como muitos moradores, ele luta para entender os motivos que levaram os jihadistas a agir como agem. “Eles não nos deixaram nada”, diz. “Nem nossos filhos, nosso dinheiro ou nossas casas.”

Outros, entretanto, viram a vitória como um passo grande em direção ao empoderamento da minoria curda da Síria após décadas de negligência do governo. “Valeu a pena”, diz Sherin Ismael, uma costureira de 26 anos. “Agora o mundo sabe que eles são curdos.” /THE NEW YORK TIMES


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